sexta-feira, 20 de abril de 2007

O autêntico gnóstico

O Papa Bento XVI apresenta Clemente de Alexandria. Na página 'Padres Apostólicos'.

O Concílio de Nicéia

Para os que ficaram irritados com as citações de Rodrigo Constantino que envolviam a Wikipedia, com a qual o rapaz imaginava derrotar o obscurantismo medieval de Olavo, recomendo a Conservapedia, que não apenas tem bons artigos (apesar de ser recente) como mostra o viés equerdista da Enciclopédia Livre. Uma boa síntese do Concílio de Nicéia:

An Ecumenical Council which was convened in 325 AD. It addressed the differing sects of Christianity, especially Arianism. As a result of the council, the Nicene Creed, which codified the theological understanding of the Holy Trinity, was issued. Until the Council of Nicaea, there was dispute within the church over the divinity of Jesus Christ. The Council ultimately decided that Jesus was the Son of God, by one vote.

The Council was presided over by Constantine, who is said to have coined the term homousis, the current language in the Nicene Creed describing Jesus as "of the same substance" as the father. Constantine's influence, though, is largely the stuff of panegyric writers, especially Eusebius of Caesarea, and his real influence is up for historical debate.[1]

The Council of Nicaea also canonized the current Bible and removed all other books of the Bible it deemed heretical, including the Gospel of Thomas and other Gnostic Gospels.

Trovas do Vento que Passa

Quando foi 'aprovada' em Portugal, em plebsicito em que participaram menos de 50% dos votantes, a lei de liberalização do homicídio (com o eufemismo abominável de 'interrupção voluntária da gravidez'), foi publicada a música Trovas do Vento que Passa. Ela está ali nos links. A letra é esta:

Pergunto ao vento que passa
Notícias do meu país
E o vento cala a desgraça
E o vento nada me diz

Mas há sempre uma candeia
Dentro da própria desgraça
Há sempre alguém que semeia
Canções no vento que passa

Mesmo na noite mais triste
Em tempo de servidão
Há sempre alguém que resiste
Há sempre alguém que diz não


TROVASDOVENTOQUEPA...


O plebiscisto vai ser, provavelmente, feito no Brasil. A Folha já começou sua campanha. A Época já criminaliza toda contrariedade ao aborto. Esperemos que nosso país não esteja dessensibilizado moralmente ao ponto da sua 'maioria democrática' dizer sim a esta injustiça aberrante. Há sempre alguém que diz não.

Comentário ao Pai Nosso






São Cipriano
A Oração do Senhor


Quais são, caríssimos irmãos, os mistérios da oração do Senhor? Quantos e quão grandes são eles, condensados em palavras breves mas prenhes de força espiritual, que nada omitem e fazem dessa oração um compêndio da doutrina celeste?

Diz ele: "Assim deveis orar: Pai-nosso, que estás nos céus". O homem novo, renascido e restaurado para Deus, pela graça, diz, logo de início, Pai, porque já começou a ser filho. "Veio pata o que era seu e os seus não o receberam. A todos, porém, que o receberam, deu o poder de se tornarem filhos de Deus, a todos os que crêem em seu nome". [1]. Assim, aquele que crê em seu nome e se torna filho de Deus, há de começar imediatamente a dar graças e a confessar-se filho de Deus. E ao dirigir-se a Deus, chamando-o de Pai que está no céu, indica também, por suas primeiras palavras da vida nova, que renunciou ao pai terreno e carnal, que reconhece o Pai que principiou a ter no céu. Pois está escrito: "Quem diz a seu pai e a sua mãe, não os conheço, e a seus filhos, não sei quem sois, este guardou os teus preceitos e conservou o teu testamento" [2]. Também o Senhor ensinou que não devemos chamar a ninguém" pai", na terra, porque só existe para nós um Pai que está nos céus. E respondeu ao discípulo que fizera menção do pai falecido: "Deixa aos mortos que sepultem os seus mortos" [3]. Ele havia dito que o seu pai estava morto, contudo o Pai dos crentes vive.

Como é grande, portanto, a indulgência do Senhor! Ele nos envolve com a abundância de sua graça e bondade, a ponto de querer que o chamemos Pai, ao elevarmos a Deus nossa oração, de modo que assim como Cristo é Filho, nós também sejamos chamados filhos. Se o próprio Cristo não nos tivesse permitido orar dessa maneira, quem de nós ousaria pronunciar tal nome de Pai? Por isso devemos estar conscientes de que se damos a Deus tal apelativo precisamos agir como filhos seus, para que assim como nos alegramos com Deus Pai, também se alegre Ele conosco. Vivamos, portanto, como templos de Deus, para que se note que Ele habita em nós. Que nossa ação não seja indigna do Espírito, para que não nos aconteça ter começado a ser do céu e pensar e praticar o que não é celeste nem espiritual. Com efeito, o Senhor nos adverte: - "Eu glorificarei os que me glorificam e desprezarei os que me desprezam" [4]. Igualmente diz o bem-aventurado Apóstolo: "Não sois vossos. Fostes comprados por um grande preço. Glorificai a Deus trazendo-o em vosso corpo" [5].

Dizemos a seguir: "Santificado seja o teu nome". Não porque pretendamos que Deus seja santificado por nossa oração, mas pedimos que seu nome seja santificado em nós. De resto, por quem poderia ser santificado o santificador? Mas, como disse ele: "sede santos, que eu também sou santo" [6], suplicamos a perseverança naquilo que começamos a ser pela santificação do batismo. Oramos assim todos os dias, necessitamos diariamente de santificação a fim de purificar-nos continuamente dos pecados de cada dia. E o Apóstolo nos indica qual a santificação que nos é conferida pela misericórdia de Deus: "Na verdade, fostes perversos, devassos... mas fostes lavados, justificados e santificados em nome de nosso Senhor Jesus Cristo e no Espírito de nosso Deus" [7]. Diz que estamos santificados em nome de Jesus Cristo e no Santo Espírito do nosso Deus. Oramos para que esta santificação permaneça em nós. E como o Senhor, nosso juiz, recomendou ao que foi por ele curado e vivificado, não reincidisse em pecado, a fim de não lhe acontecer algo pior, fazemos continuamente esta prece, suplicamos dia e noite, seja mantida em nós, pela proteção de Deus, a santificação e vivificação que recebemos de sua graça.

Segue-se a petição: "Venha a nós o teu reino". Desejamos que o reino de Deus se torne presente a nós, como havíamos desejado que o seu nome fosse santificado em nós. Pois quando é que Deus não reina? Quando poderia começar para ele um reino que sempre existiu e nunca deixará de existir? Pedimos, pois, que venha a nós o "teu reino", aquele que nos foi prometido por Deus e obtido pela paixão de Cristo. Nós, os que servimos neste século como servos, esperamos reinar com Cristo vitorioso, conforme a promessa: "Vinde, benditos de meu Pai, apossai-vos do reino que vos está preparado desde o começo do mundo" [8]. Pode-se dizer que o próprio Cristo seja o reino de Deus ao qual queremos chegar, cada dia, e cujo advento pedimos que se abrevie. Pois se ele é a nossa ressurreição, porque nele ressuscitamos, podemos igualmente conceber que ele seja também o reino, uma vez que nele havemos de reinar. E com razão pedimos o reino de Deus, isto é, o reino celeste, pois há também o reino terrestre, mas quem renunciou ao século está acima desse reino e das suas honras.

Ajuntamos a seguir: "Seja feita a tua vontade assim na terra como no céu". Não que Deus deva ser rogado a fazer o que Ele mesmo quer, mas nós devemos fazer o que Ele quer.

Quem o impediria de fazer o que quer? Nós, todavia, perturbados como somos pelo diabo, que pretende impedir-nos de seguir a Deus com toda a alma e ação, regamos que se cumpra em nós a vontade de Deus, para o que é indispensável sua ajuda e proteção. Ninguém é forte por suas próprias forças, mas graças à indulgência e misericórdia de Deus. Até o próprio Cristo indica a fraqueza do homem que ele mesmo carregava, dizendo: "Pai, se possível, afasta de mim este cálice" [9]. E acrescentou imediatamente, deixando aos discípulos o exemplo de que não deveriam fazer a própria vontade, mas a de Deus: "contudo, não se faça o que eu quero, mas o que tu queres". O mesmo ele diz em outro lugar: "Não desci do céu para fazer a minha vontade, mas a daquele que me enviou" [10].

Se o Filho esteve atento no cumprir a vontade do Pai, quanto mais deve estar o servo em relação ao Senhor. São João nos exorta igualmente, em sua epístola, a cumprir a vontade do Pai: "Não ameis o mundo, nem o que está no mundo. Se alguém ama o mundo, a caridade do Pai não está nele. Pois tudo que está no mundo é concupiscência da carne, concupiscência do mundo. O mundo passará, e igualmente a sua concupiscência; aquele, porém, que cumprir a vontade de Deus permanece eternamente" [11]. Os que quisermos permanecer eternamente devemos, pois, cumprir a vontade do eterno Deus.

Ora, a vontade de Deus é a que Cristo praticou e ensinou. Humildade na vida, estabilidade na fé, veracidade nas palavras, justiça no agir, misericórdia nas obras, disciplina nos costumes, não saber injuriar, tolerar a injúria recebida, manter a paz com os irmãos, querer a Deus com todo o coração, amando-o como Pai e temendo-o como Deus; nada prepor ao Cristo, porque ele também nada prepôs a nós; aderir inseparavelmente à sua caridade, unir-se à sua cruz com firmeza e fé e, quando houver luta por seu nome e honra, manifestar na palavra e constância, com que o confessarmos diante dos juízes, a firmeza de nosso combate; manifestar enfim na morte a paciência pela qual somos coroados. Isso é ser co-herdeiros de Cristo, isso é praticar o preceito de Deus, isso é cumprir a vontade do Pai!

Pedimos que seja feita a vontade do Pai assim na terra como no céu, pois em ambos os casos está em jogo nossa segurança e salvação. Possuímos um corpo da terra e um espírito do céu, somos a um tempo terra e céu. Oramos para que em ambos, corpo e espírito, seja feita a vontade de Deus. Na verdade, há luta entre a carne e o espírito, e essa discórdia diária acarreta-nos embaraços para fazer o que queremos. De um lado o espírito procura o que é celeste, o divino; de outro lado a carne cobiça o secular, o terreno. Por isso pedimos que pelo auxílio de Deus se estabeleça a harmonia entre ambos, que graças à sua vontade, realizada na carne e no espírito, seja salva a vida por ele renascida.

Pode-se ainda, irmãos caríssimos, entender de outra maneira. Como o Senhor quer e exige que amemos até os inimigos, que oremos até pelos que nos perseguem, pode-se entender que devamos pedir também pelos que ainda são terra e não começaram a ser celestes, para que neles se realize a vontade de Deus, a vontade que Cristo cumpriu conservando e reintegrando o homem.

O Senhor já não chama seus discípulos terra, mas sal da terra, e o Apóstolo diz que o primeiro homem é limo da terra, ao passo que o segundo é celeste; portanto, nós, que devemos ser semelhantes ao Pai - (o qual faz nascer o sol sobre bens e maus, chover sobre justos e injustos) - seguindo o conselho de Cristo, oramos e pedimos numa única prece pela salvação de todos. Assim como a vontade de Deus foi feita no céu, isto é, em nós - que pela fé nos tornamos céu assim se faça também na terra, isto é, nos que ainda não crêem, que ainda são terrenos pelo primeiro nascimento a fim de começarem a ser celestes pelo renascimento na água e no Espírito.

Prosseguindo, dizemos: "O pão nosso de cada dia dá-nos hoje". Podemos tomar este pedido tanto no sentido espiritual como no literal, pois os dois modos de entender servem divinamente à nossa salvação. O Cristo é o pão da vida, e este pão não é de todos, é nosso. E assim como dissemos Pai nosso) porque é Pai dos que entendem e crêem, dizemos também pão nosso) porque é pão para aqueles que comem o seu corpo. Pedimos que este pão nos seja dado diariamente a fim de que, estando no Cristo e recebendo diariamente a eucaristia como alimento de salvação, não venhamos a ser separados do Corpo de Cristo e tornar-nos alguma vez proibidos de participar do pão celeste, afastados da comunhão, por causa de algum grave pecado. Ele próprio disse: "Eu sou o pão que desci do céu. Se alguém comer do meu pão viverá eternamente. E o pão que eu darei é a minha carne para a vida do mundo" [12]. Dizendo viver eternamente quem comer deste pão, fica evidente que viverão sempre os que pertencem ao seu corpo e recebem a eucaristia, pelo direito da comunhão, ao mesmo tempo que se passa a temer que alguém seja separado do corpo de Cristo e afastado da salvação, pela interdição de participar do pão. Devemos orar para que tal não aconteça, como ele mesmo nos adverte: "se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós" [13]. Por isso pedimos que o pão nosso, isto é, Cristo, nos seja dado diariamente. Vivendo nele, não nos afastaremos de seu corpo e de sua santificação.

Pode-se, na verdade, interpretar de outra maneira estas palavras. Pode-se entender que nós, que renunciamos ao século e rejeitamos as suas riquezas e pompas, pela fé da graça espiritual, não peçamos senão o alimento indispensável para o nosso sustento, conforme a palavra do Senhor: "Quem não renunciar a tudo que possui, não pode ser meu discípulo". [14]. Quem, portanto, seguindo a palavra do Mestre, renunciou a tudo e começou a ser discípulo de Cristo, deve pedir o alimento para o dia que passa e não estender os seus desejos em longos pedidos. Assim ele preceituou, dizendo: "Não penseis no dia de amanhã, porque o dia de amanhã trará os seus cuidados. Basta a cada dia a sua própria pena". [15]. Assim, o discípulo de Cristo, proibido de preocupar-se com o dia de amanhã, pede apenas o alimento de cada dia. Aliás, seria estranho e contraditório pedirmos que o reino de Deus venha a nós em breve e ao mesmo tempo cuidarmos de viver no mundo mais longamente. Também o Apóstolo aconselha, fortalecendo e consolidando nossa fé e esperança: "Nada trouxemos para este mundo; e nada, na verdade, podemos levar. Se temos o que comer e vestir, estejamos contentes. Os que desejam enriquecer, caem na tentação, no laço e em muitos desejos nocivos que lançam o homem na perdição e na morte. Com efeito, a raiz de todos os males é a cobiça; por ela alguns se afastaram da fé e acarretaram para si muitas dores" [16].

Esta doutrina ensina, não só que as riquezas devam ser desprezadas, mas que são perigosas, achando-se nelas a raiz dos males que afagam e enganam, por disfarces e seduções, a cega mente humana. Daí, Deus ter respondido ao rico insensato que pensava nos seus bens terrenos e se vangloriava da abundância dos seus frutos: "Insensato, esta noite ainda, entregarás a tua alma; para quem ficará o que preparaste?" [17] Alegrava-se o insensato com seus frutos na noite em que ia morrer, preocupava-se com a abundância de alimento no momento em que a vida já se afastava.

O Senhor ensina, ao contrário, tornar-se perfeito e íntegro quem vende tudo o que possui e dá aos pobres, prepara este seu tesouro no céu. Diz o Senhor que só pode segui-lo e imitar a glória de sua paixão quem não está ligado por interesses particulares e então, pronto e sem empecilhos, está livre para acompanhar com a própria pessoa a doação já feita dos bens. Em preparação para isso aprenda-se a orar dessa maneira e a descobrir assim como se deve ser.

Pedimos a seguir por nossos pecados, dizendo: - "Perdoa as nossas dívidas, como nós perdoamos aos nossos devedores". Depois do socorro do alimento, o perdão do pecado. Quem é alimentado por Deus, viva também em Deus; cuide não só da vida presente e temporal, mas sobretudo da eterna, à qual se pode chegar se os pecados são perdoados, pecados que o Senhor, no Evangelho, chama dívidas: "Perdoei toda a tua dívida, porque me pediste" [18].

Mas, quão necessária, quão salutar e previdentemente se nos adverte que somos pecadores e devemos rogar pelos nossos pecados! Pois ao pedirmos a misericórdia de Deus, tomamos consciência de nós mesmos. Para que ninguém se contente consigo, presumindo-se inocente, nem avance ainda mais para a morte, exaltando-se, está essa ordem de rezarmos cada dia pelos próprios pecados, lembrando-nos que pecamos diariamente. Disso aliás também nos previne João, na epístola: "Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos e a verdade não está conosco. Se, porém, confessarmos nossos pecados, o Senhor é fiel e justo para perdoá-los" [19]. Aqui estão duas idéias: devemos rogar pelos nossos pecados, e conseguiremos a indulgência quando o fizermos. Por isso, diz-se que o Senhor é fiel no cumprimento de sua promessa, isto é, fiel no perdão dos pecados: ensinou-nos a orar nessa intenção, prometendo a indulgência e a misericórdia de um Pai.

Mas vem logo indicada, claramente, a condição segura e o penhor de nossa prece, a maneira em que devemos fazê-la: peçamos para nós o perdão das dívidas na medida em que perdoarmos aos nossos devedores; não podemos conseguir o que pedimos para os nossos pecados, se não fizermos o mesmo em relação aos nossos devedores. Nesse sentido, lê-se em outro lugar: "Na medida em que medirdes, sereis medidos" [20]. Assim, aquele servo que recebera do senhor o perdão de toda a sua dívida e a seguir não quis fazer o mesmo para o companheiro, foi preso e encarcerado. O senhor retirou-lhe o perdão porque lhe faltou indulgência para com o companheiro. Outra vez, mais fortemente ainda, Cristo propõe, entre seus preceitos, este princípio: "Se ides orar e tendes alguma coisa contra alguém, perdoai-o antes, para que o vosso Pai celeste, igualmente, vos perdoe os pecados. Se porém não perdoardes, vosso Pai do céu também não perdoará os vossos pecados" [21]. Não te restará, pois, a menor escusa no dia do juízo, quando fores julgado conforme tua sentença. Como fizeste, assim te será feito.

Deus preceituou que devemos ser pacíficos, concordes e unânimes em sua casa. Ele quer que perseveremos tais como nos fez pela geração do segundo nascimento, a fim de que permaneçam na sua paz, os que vivemos em Deus e tenhamos uma só alma e um só sentir os que temos um só Espírito. Deus não aceita o sacrifício do dissidente. Manda que volte do altar e se reconcilie antes com o irmão para ser benigno e obter a benignidade de Deus. O máximo sacrifício, aos olhos de Deus, é a nossa paz e concórdia fraternal, é o povo reunido na unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

Manda-nos ainda o Senhor que digamos na oração: "E não nos deixes cair em tentação". Isto mostra que o adversário nada pode contra nós sem uma permissão de Deus. Assim, voltar-se-á para o Senhor todo nosso temor, zelo e devoção; pois nada é possível ao Maligno, no sentido de tentar-nos, sem a divina permissão.

Prova-o a divina Escritura; "Veio Nabucodonosor, rei da Babilônia, a Jerusalém e atacou-a; o Senhor entregou-a em suas mãos" [22].

E o poder contra nós é dado a ele segundo os nossos pecados, pois está escrito: "Quem entregou Jacó ao massacre e Israel aos espoliadores? Não foi Deus, contra quem pecaram, cujas vias não quiseram seguir e cuja lei não quiseram ouvir, que dirigiu para eles a ira de sua alma?" [23] E também a respeito de Salomão, quando pecou e se afastou dos caminhos de Senhor: "O Senhor excitou Satanás contra Salomão" [24].

De duas maneiras é dado poder contra nós: para castigo, quando pecamos; para glória, quando somos provados. Isso aparece concretamente no caso de Jó, por revelação do próprio Deus: "Eis, tudo que é dele coloco em teu poder; cuida, porém, de nele não tocares" [25].

No Evangelho, diz o Senhor sobre o tempo da paixão: "Nenhum poder terias contra mim, se não te fosse dado do alto" [26].

Rogando para não cair em tentação, lembramo-nos de nossa fraqueza e miséria, e não nos exaltarmos insolentemente, considerando orgulhosamente algo como nosso, não julgaremos nossa glória a confissão do martírio. Pois, ensinando-nos a humildade, diz o Senhor: "Vigiai e orai para não cairdes em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca" [27]. Antepõe, assim, a confissão humilde e submissa à prece, atribui tudo a Deus a fim de obteres da sua misericórdia o que pedires com temor e reverência.

Depois disto tudo, completando a oração, vem a petição final que, numa síntese brevíssima conclui todos os nossos pedidos e súplicas. Dizemos em último lugar: - "Livra-nos de todo o mal" abrangendo com esta palavra as adversidades que o inimigo possa maquinar contra nós neste mundo. Contra todas as tramas suas estaremos firmes e seguros se Deus nos livrar delas, se conceder seu auxílio aos que Lho suplicam e imploram. Tendo dito: "Livra-nos do mal", nada mais resta a pedir, pois já pedimos, de uma só vez, a proteção de Deus contra o mal; conseguida essa proteção estamos seguramente guardados contra as maquinações do diabo e do mundo. Com efeito, que se poderá temer no mundo se se tem a Deus por guardião?

1 Jo 1,115.
2 Dt 33,9.
3 Mt 8,22.
4 15m 2,30.
5 lCor 6,19.
6 Lv 20,26; Pd 1,16.
7 1Cor 6,95.
8 Mt 25,34.
9 Mt 26,39.
10 Jo 6,38
11 lJo 2,15 ss
12 Jo 6,51.
13 Jo 6,53.
14 Lc 14,33.
15 Mt 6,34.
16 1Tm 5,7 ss.
17 Lc 20,20.
18 Mt 18,32
19 1Jo 1,8.
20 Mt 7,2.
21 Mt 6,14
22 Dn 1,1-2.
23 Is 12,255.
24 1Rs 1,14.
25 Jo 1,12.
26 Jo 19,11.
27 Mt 26,41.


Fonte:
GOMES, Cirilo Folch, OSB. Antologia dos Santos Padres.
Coleção "Patrologia". Ed. Paulinas, São Paulo, 1985..

Diálogo sobre a Encarnação

São Cirilo de Alexandria (+444)


Rejeitemos todos os disparates, fábulas inconsistentes, falsas opiniões, ilusórias frases pomposas. Guardemos distância de tudo que é nocivo, mesmo que os adversários nos ensurdeçam com seus discursos astutos ou agressivos. Porque o mistério divino ‘não consiste em discursos persuasivos da sabedoria humana, mas na manifestação do Espírito".

O Unigênito, que conforme as Escrituras era Deus e Senhor de todas as coisas, revelou-se a nós. Foi visto sobre a terra e iluminou os que jaziam nas trevas, fazendo-se homem. Não só pelas aparências: não se pense assim, é loucura pensá-lo e dizê-lo! Nem tampouco porque se tivesse tornado carne mediante uma mudança ou transformação: o Verbo é imutável, ele permanece eternamente o mesmo! Nem porque sua existência fosse contemporânea à da carne: ele é o Autor dos séculos! Nem porque, como pura palavra (sem subsistência) se tivesse tornado homem: é ele o pré-existente, que chama as coisas a existirem e nascerem! É ele a Vida, procedente da Vida, que é Deus Pai, o qual, como sabemos, o é na realidade, existe em própria hipóstase. Nem simplesmente se revestiu de uma carne privada de alma racional: foi verdadeiramente gerado por uma mulher, mostrou-se homem, assumindo a forma de servo, ele, o Deus Verbo, co-eterno e co-existente com o Pai; e assim como é perfeito em sua divindade, assim o é na sua humanidade, constituindo um só Cristo, Senhor e Filho, não apenas por justaposição da divindade e da carne, mas pela conexão paradoxal de dois elementos completos, a humanidade e a divindade, num único e mesmo ser.

- Quem, pois, foi gerado pela santa Virgem? O homem ou o Verbo procedente de Deus?

- Eis aí o erro, o pecado, contra todas as conveniências e contra a verdade! Não me vás dividir ou separar o Emanuel em um homem e um Deus Verbo, não mo faças um ser de dupla personalidade. Porque senão estaremos incorrendo numa afirmação condenada pela Sagrada Escritura, não estaremos pensando corretamente. Eis, na verdade, o que diz um dos discípulos de Cristo: "Quanto a vós, caríssimos, lembrai-vos do que foi predito pelos apóstolos de nosso Senhor Jesus Cristo, quando vos falavam: nos últimos tempos virão impostores, que viverão segundo suas ímpias paixões, homens que semeiam a discórdia, homens sensuais que não têm o Espírito”

- Então não se deve introduzir divisão alguma?

- Não. E, sobretudo não se devem afirmar dois seres após a união, pensando cada um em separado. É preciso reconhecer que a mente considera certa diferença entre as naturezas: a divindade e a humanidade não são, seguramente, a mesma coisa; mas ao mesmo tempo que tais conceitos, há de se admitir a fusão das duas numa unidade.

Assim, ele nasceu de Deus Pai enquanto Deus, da Virgem enquanto homem. Esplendor derivado do Pai, acima de toda palavra e de todo pensamento, o Verbo é dito também gerado por uma mulher, pois, descendo à humanidade, tornou-se o que não era; não para ficar nesse aniquilamento, mas para que o creiamos Deus, mesmo quando se manifestou na terra sob uma forma como a nossa; não simplesmente habitando no homem, mas tornando-se, ele mesmo, homem por natureza, e conservando sua própria glória. Assim, esses dois elementos tão distantes de qualquer consubstancialidade, separados por incomensurável diferença, a humanidade e a divindade, Paulo os vê unidos num só, em razão da Economia, indicando que dos dois se constituiu um só Cristo, Filho de Deus: "Paulo - disse ele - servo do Cristo Jesus, chamado para ser apóstolo, segregado para o Evangelho de Deus, outrora prometido pelos profetas nas santas Escrituras a respeito de seu Filho, nascido, segundo a carne, da semente de Davi, estabelecido em seu poder de Filho de Deus, segundo o Espírito de santidade"

Veja-se como ele se diz "segregado para o Evangelho de Deus", embora escreva também: "Não pregamos a nós, mas a Jesus, Cristo e Senhor" , e ainda: "Não quis saber nada mais entre vós senão Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado".

Ora, ao mesmo tempo que designando-o como Filho de Deus, Paulo diz também que Cristo nasceu da semente de Davi e foi estabelecido Filho de Deus. Como - diz-me - é Deus o que nasceu da semente de Davi? O Filho anterior aos séculos, eterno enquanto nascido de Deus - pôde ser estabelecido filho de Deus, como se de pouco tivesse vindo à existência? Na verdade, ele mesmo disse de si: "O Senhor me falou: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei" , e no entanto a palavra "hoje" nos indica o momento presente, não o passado.

- Isso não deixou de me embaraçar muito, e diria que outros também tiveram dificuldades para compreendê-lo.

- Para os que separam e dividem (o Cristo), há de que se embaraçarem, com efeito; mas para os que afirmam a unidade no Emanuel, é fácil o conhecimento autêntico dos sagrados dogmas. O Filho co eterno a aquele que o gerou, e anterior aos séculos, quando desceu à natureza humana - sem abandonar sua qualidade de Deus, mas acrescentando-lhe o elemento humano - pôde na verdade ser concebido como oriundo da semente de Davi e ter um nascimento recente. Pois o que se lhe acrescentou não lhe era estranho, e sim próprio; assim, foi computado como um consigo, exatamente como no caso do composto humano, feito de elementos naturalmente desiguais (refiro-me à alma e ao corpo) e que no entanto fazem resultar um único homem. Assim como a carne empresta seu nome ao vivente inteiro, ou a alma também pode designá-lo, eis o que acontece em Cristo. Pois não há senão um Filho e um Senhor Jesus Cristo, antes de assumir a carne e depois que se manifestou como homem. Não estaremos assim renegando o Mestre que nos resgatou, mesmo se ocorre vir designado por suas fraquezas humanas e pelos limites impostos por seu aniquilamento.

- Não estou seguindo bastante bem; gostaria de uma explicação mais clara.

- Nosso Senhor Jesus Cristo disse, dirigindo-se aos judeus: "Se fôsseis os filhos de Abraão, faríeis as obras de Abraão, em vez de procurar matar-me - a mim que vos disse a verdade. Isso Abraão não fez".

Paulo, por sua vez, escreve: "Foi ele que, nos dias de sua vida mortal, ofereceu preces e súplicas, acompanhadas de um grande brado e de lágrimas, àquele que o poderia salvar da morte, e foi ouvido por sua reverência. Embora Filho, aprendeu pelo sofrimento o que significa obedecer".

Diremos, então, que Cristo é puro homem, em nada superior ao que nós somos?

- Não, não se diga assim!

- Ele, a sabedoria e o poder de Deus, admitiremos que tenha descido a tal grau de fraqueza a ponto de temer a morte e a ponto de suplicar ao Pai a salvação? Tiraremos ao Emanuel o privilégio de ser a Vida, por natureza? Ou estaremos falando corretamente ao reportar à humanidade e à limitação da natureza semelhante à nossa as expressões menos honrosas, percebendo ao mesmo tempo a glória sobrenatural que lhe vem dos traços de sua divindade, compreendendo que o mesmo é, a uma vez, Deus e homem, ou antes, Deus feito homem?

- Como assim, diz-me?

- Venha testemunhar entre nós o ilustre Paulo, de quem são estas palavras: "É da sabedoria que falamos aos perfeitos, não de uma sabedoria deste mundo nem dos príncipes deste mundo, condenados a perecer. Falamos da sabedoria de Deus, misteriosa e secreta, que nenhum dos príncipes deste mundo conheceu. Porque se a tivessem conhecido não teriam crucificado ao Senhor da glória" . E ainda: "Esplendor da (divina) glória e figura da (divina) substancia, ele mantém o universo com o poder de sua palavra. Depois de ter realizado a purificação dos pecados, está sentado à direita da Majestade divina ro mais alto dos céus, tão sublimado acima dos anjos, quanto excede o deles o nome que herdou" . De fato, ser e chamar-se "Senhor da glória" não está muito acima e além de toda criatura, sujeita à mudança? E omito o que se refere à espécie humana, que é bem menos importante: são aqui mencionados os anjos, as potestades, os tronos, as dominações, são mencionados até os sublimes serafins, reconhecendo-se que estão muito aquém desse sublime Esplendor, o que é claro ao menos para quem não traz o espírito corrompido. Tais privilégios, verdadeiramente extraordinários, são apanágio da natureza que reina sobre o universo.

Ora, como o Crucificado poderia tornar-se Senhor da glória? O Esplendor do Pai, a imagem de sua substância, o que sustenta o universo por sua palavra poderosa, ei-lo dito feito superior aos anjos: penso que só porque assumira antes uma condição inferior à deles, aparecendo como homem. Está escrito, com efeito: "aquele que foi rebaixado um instante sob os anjos, Jesus, nós o vemos coroado de glória e de honra, por causa da morte que sofreu ".

Apartaremos então o Verbo, nascido de Deus Pai, da transcendência que lhe cabe por sua essência, da exata semelhança com esse Pai, quando o vemos inferior em glória aos anjos, na situação humilde que lhe trouxe a Economia?

- Não, por certo. Não penso que se deva separar completamente o Verbo de Deus das fraquezas humanas após sua união com a carne, nem despojar da divina glória o elemento humano, se se julga e se confessa estar este no Cristo. Alguns perguntarão, contudo, bem o sabes: mas quem é então Jesus Cristo? O homem nascido da Virgem ou o Verbo nascido de Deus?

- Francamente, é tolice estender-nos inutilmente na resposta a um vão palavreado. Contento-me em dizer que é perigoso e culpável separar em dois, pondo cada um à parte, o homem e o Verbo: a Economia não o admite, a Escritura inspirada clama que Cristo é um. Quanto a mim, digo que nem o Verbo divino sem a humanidade, nem o templo nascido da mulher, enquanto não está unido ao Verbo, devem ser chamados Jesus Cristo. Por Cristo se entende o Verbo procedente de Deus, unido à humanidade. Superior à humanidade enquanto Deus, por natureza, e Filho. Inferiorizado à glória digna de Deus, enquanto homem. Por isso, ora disse ele: "quem me viu, viu o Pai" , "eu e o Pai somos um" ; ora disse, ao contrário: "meu Pai é maior do que eu" . Não é menor do que o Pai enquanto lhe é idêntico em substância, é seu igual sob todos os aspectos, mas se diz menor em razão do que tem de humano. As Sagradas Escrituras o pregam também assim, ora como inteiramente homem, sem mencionar sua divindade, ora como Deus, sem nada dizer de sua humanidade. Não erram, por causa da conjunção dos dois elementos na unidade.
Obras:

1.

Catequeses Mistagógicas

Fonte:
GOMES, C. Folch Antologia dos Santos Padres.
São Paulo- Ed. Paulinas 1979

Sobre a Páscoa

De Melitão de Sardes

O mistério da Páscoa: a novidade do Verbo encarnado

Foi lida a Escritura a respeito do êxodo hebreu, foram explicadas as palavras do mistério: como a ovelha foi imolada e o povo foi salvo.

Compreendei, pois, caríssimos! É assim novo e antigo,
eterno e temporal,
corruptível e incorruptível,
mortal e imortal
o mistério da Páscoa:
antigo segundo a Lei,
novo segundo o Verbo;
as não era ovelha;
como o cordeiro, não abriu a boca,
mas não era cordeiro.
Passou a figura, persiste a realidade.
Em vez do cordeiro, Deus presente,
em vez da ovelha, um homem,
e neste homem, Cristo, aquele que sustém todas as coisas.
Assim, o sacrifício da ovelha,
e a solenidade da Páscoa,
e a letra da Lei,
cederam lugar ao Cristo Jesus,
por causa do qual tudo sucedera na antiga Lei,
e muito mais sucede na nova disposição

Pois a Lei se converteu em Verbo, o antigo em novo,
ambos saídos de Sião, e de Jerusalém.

O mandamento se converteu em dádiva,
a figura em realidade,
o cordeiro em Filho,
a ovelha em homem,
o homem em Deus.

Com efeito, aquele que nascera como Filho,
e fora conduzido como cordeiro,
sacrificado como ovelha,
sepultado como homem,
ressuscitou dentre os mortos como Deus,
sendo por natureza Deus e homem.

Ele é tudo:
enquanto julga, é lei;
enquanto ensina, Verbo;
enquanto gera, pai;
enquanto sepultado, homem;
enquanto ressurge, Deus;
enquanto gerado, Filho;
enquanto padece, ovelha;
ele, Jesus Cristo, a quem seja dada a glória pelos séculos. Amém.

Tal é o mistério da Páscoa, como foi descrito na Lei e como o acabamos de ler.

As figuras do Antigo Testamento, suplantadas pela realidade do Novo

A salvação do Senhor e a realidade
foram prefiguradas no povo ( judeu),
as prescrições do Evangelho prenunciadas pela Lei.
o povo era como o esboço de um plano,
a Lei como a letra de uma parábola;
mas o Evangelho é a explicação da Lei e seu cumprimento,
e a Igreja o lugar onde isso se realiza.

O que existia como figura era valioso
antes que ocorresse a realidade,
maravilhosa a parábola antes que viesse a explicação.

O povo tinha seu valor antes que se estabelecesse a Igreja,
Lei era admirável antes que refulgisse o Evangelho.
Mas quando surgiu a Igreja e se apresentou o Evangelho,
esvaziou-se a figura, sua força passou para a realidade,
a Lei se cumpriu, transfundiu-se no Evangelho...

O povo perdeu razão de ser quando veio a Igreja,
a imagem se fez abolida quando apareceu o Senhor.

O que antes era valioso perdeu seu valor,
frente à manifestação do que era realmente valioso por natureza.

Valioso era antes o sacrifício da ovelha,
agora perdeu o valor, por causa da vida do Senhor.

Valiosa era a morte da ovelha,
agora perdeu o valor, por causa da salvação do Senhor.

Valioso era o sangue da ovelha,
mas perdeu o valor, por causa do Espírito do Senhor.

Valioso era o cordeiro que não abria a boca,
mas perdeu o valor, por causa do Filho sem mácula.

Valioso era o templo terreno,
mas perdeu o valor, por causa do Cristo celeste.

Valiosa era a Jerusalém de baixo,
mas perdeu o valor, por causa da Jerusalém do alto.

Valiosa era a pequena herança,
mas perdeu o valor por causa da amplitude do dom.

Porque não foi em parte alguma da terra,
em nenhuma faixa estreita da terra
que se estabeleceu a glória de Deus,
e sim por todos os confins se derramou seu dom,
em toda parte armou sua tenda o Deus onipotente.

Por Jesus Cristo, a quem seja dada glória pelos séculos. Amém.


O Pecado do Homem

Deus, no princípio, tendo criado pelo Verbo o céu, a terra e tudo o que neles se encerra, modelou do barro o homem e comunicou-lhe seu sopro. Colocou-o em seguida num jardim voltado para o Oriente, o Eden, para que ali vivesse feliz. E deu-lhe um mandamento...

Mas o homem, sendo por natureza capaz do bem e do mal, como uma porção de terra capaz de receber sementes boas e más, escutou ao conselheiro hostil e, tomando o fruto da árvore, transgrediu o mandamento, desobedeceu a Deus.

Por conseguinte, foi deixado neste mundo, como numa prisão de condenados. Após muitos anos e após gerar numerosa prole, voltou à terra, de cUJa árvore colhera o fruto, legando a seus filhos esta herança...

não a pureza, mas a luxúria,
não a imortalidade, mas a corrupção,
não a honra, mas a desonra,
não a liberdade, mas a escravidão, não a realeza, mas a tirania,
não a vida, mas a morte,
não a salvação, mas a perdição.

Nova e terrível tornou-se a ruína dos homens sobre a terra. Eis o que lhes aconteceu: foram tiranizados pelo pecado, e levados a lugares de concupiscência, para viverem assaltados por prazeres insaciáveis, pelo adultério, a fornicação, a impureza, os maus desejos, a cobiça, os homicídios, o derramamento de sangue, a tirania da maldade e da injustiça. Era o pai lançando a espada contra o filho, o filho erguendo a mão contra o pai, o ímpio golpeando a lactante, o irmão ferindo o seu irmão, o hospedeiro injuriando o hóspede, o amigo assassinando seu amigo, o homem degolando o semelhante. Todos se transformaram na terra em homicidas, fratricidas, parricidas, infanticidas...

E com isso exultava o Pecado: colaborador da Morte, precedia-a nas almas dos homens e preparava-lhe como alimento os corpos mortos. Imprimia em toda alma sua marca, para fazer morrer os que a traziam.

Toda carne, pois, caiu sob o pecado,
e todo corpo sob a morte.

Toda alma foi arrancada de sua morada de carne
e o que foi tirado da terra se dissolveu na terra,
o que foi dado por Deus se encarcerou no Hades.

Estava destruída a bela harmonia,
desfeito o belo corpo.

O homem dividido sob o poder da morte,
estranha desgraça a aprisioná-la:

Era arrastado como cativo pelas sombras da morte,
jazia abandonada a imagem do Pai.

Eis a razão por que se cumpriu o mistério da Páscoa
no corpo do Senhor.

O Desígnio Salvador em Cristo

O Senhor havia ordenado de antemão seus próprios padecimentos nos patriarcas, nos profetas e em todo o povo, pondo como seu selo a Lei e os profetas. Pois o que devia realizar-se de modo inaudito e grandioso estava preparado desde muito, a fim de que ao suceder fosse crido, depois de tão vaticinado (...)

Antigo e novo o mistério do Senhor:
antigo na figura, novo no dom.

Se vês a figura, verás a realidade ao longo de sua atuação.

Se queres contemplar o mistério do Senhor verás
Abel, assassinado como ele,
Isaac, aprisionado como ele,
José, vendido como ele,
Moisés, exposto como ele,
Davi, perseguido como ele,
os profetas padecendo como ele e por causa dele.

Contempla também o cordeiro degolado na terra egípcia,
que abateu o Egito e salvou a Israel por seu sangue (...)

Aquele que veio dos céus à terra por causa do homem que sofria,
e se revestiu do homem nas entranhas de uma Virgem,
aparecendo como homem.

Aquele que assumiu os sofrimentos de quem sofria,
tomando um corpo capaz de sofrer,
aquele que anulou os sofrimentos da carne,
destruindo com seu espírito imortal a morte homicida (...)

Aquele que nos tirou da escravidão para a liberdade,
das trevas para a luz,
da morte para a vida,
da tirania para o reino eterno.

Que fez de nós um sacerdócio novo
e um povo escolhido para sempre,

Ele, a Páscoa de nossa salvação...

Ele, que se encarnou numa Virgem,
se deixou suspender na cruz,
foi sepultado na terra,
ressuscitou dos mortos,
foi arrebatado aos céus.

Ele, o cordeiro emudecido,
o cordeiro imolado,
nascido de Maria, a ovelha bela,
o cordeiro levado do rebanho ao matadouro,
sacrificado à tarde, sepultado à noite.

Não lhe quebraram os ossos no madeiro,
na terra não sofreu a corrupção,
mas ressurgiu dentre os mortos,
ressuscitou o homem das profundezas do sepulcro

Ele, entregue à morte. Onde? No meio de Jerusalém.

Por quê?

Porque curou os coxos,
purificou os leprosos,
trouxe a luz aos cegos,
despertou os mortos.

Por isto padeceu...

Por que cometeste, ó Israel, tão grande injustiça,
entregando teu Senhor a tais sofrimentos,
ele, teu amo,
ele, que te plasmou,
te criou,
te honrou,
te chamou Israel?

Não te mostraste" Israel" pois não viste a Deus,
não reconheceste o Senhor,
não soubeste ser ele o primogênito de Deus,
aquele que foi gerado antes da estrela matutina,
aquele que fez brotar a luz,
fez brilhar o dia,
separou as trevas,
firmou o primeiro fundamento,
suspendeu a terra,
secou o abismo,
estendeu o céu,
organizou o mundo,
dispôs no alto os astros,
fez resplandecer as estrelas,
fez os anjos celestiais,
fixou nas alturas os tronos,
modelou na terra o homem!

Ele, o que te escolheu e te guiou de Adão a Noé,
de Noé a Abraão,
de Abraão a Isaac, a Jacó e aos patriarcas;
aquele que te conduziu ao Egito e te protegeu e sustentou,
que iluminou teu caminho com a coluna de fogo,
te ocultou sob a nuvem,
e dividiu o mar Vermelho para atravessares suas águas.

Que dispersou teu inimigo,
te deu o maná do alto,
e a água da pedra.

Que te deu a Lei em Horeb,
e te fez herdar a terra,
que te enviou os profetas

Verdadeiramente é amarga
conforme está escrito:

"Comereis pães ázimos com ervas amargas".

Amargos para ti os cravos que afiaste,
amarga a língua que aguçaste,
amargas as falsas testemunhas que propuseste,
amargas as cordas que preparaste:,
amargos os açoites que descarregaste,
amargo para ti foi Judas, a quem pagaste,
amargo Herodes a quem obedeceste,
amargo Caifás, em quem confiaste,
amargo o fel que ofereceste,
o vinagre que cultivaste,
amargos os espinhos que ajuntaste,
amargas as mãos que ensangüentaste.

Entregaste teu Senhor à morte, no meio de Jerusalém...


O triunfo de Cristo


Ele, o Senhor, revestido do homem,
padecente pelo homem que sofria,
atado pelo homem prisioneiro,
julgado em prol do culpado,
sepultado pelo que jazia na terra,
ressurgiu dentre os mortos e clamou em alta voz:

"Quem se levantará em juízo contra mim?

Venha defrontar-se comigo!

Eu libertei o condenado,
vivifiquei o morto,
reergui o sepultado.

Quem me irá contradizer?

Eu, o Cristo, destruí a morte,
triunfei do inimigo,
esmaguei o inferno,
rnanietei o forte,
arrebatei o homem para as alturas dos céus.

Eu, o Cristo!

Vinde, pois, famílias dos homens manchadas por pecados,
recebei o perdão dos pecados!

Pois sou vosso perdão,
eu, a Páscoa da salvação,

O cordeiro imolado por vós
a vossa redenção,
a vossa vida,
a vossa ressurreição,
a vossa luz,
a vossa salvação,
o vosso rei.

Eu vos elevarei à sublimidade dos céus,
e vos mostrarei o Pai que existe desde os séculos,
vos ressuscitarei por minha destra".

A ele, o Cristo,
o Alfa e o Omega,
o começo e o fim,
o inenarrável começo, o incompreensível fim,
o Rei,
a ele, Jesus,
o Chefe,
o Senhor,
o que ressurgiu dentre os mortos,
o que está assentado à direita do Pai,
o que conduz ao Pai e é conduzido pelo Pai,
a ele gloria e poder pelos séculos. Amém.



Fonte:
GOMES, C. Folch Antologia dos Santos Padres.
São Paulo- Ed. Paulinas 1979

quinta-feira, 19 de abril de 2007

Como tratar o homossexualismo?

Fonte

De Estêvão Bettencourt, na revista Pergunte e Responderemos. Deixarei como imagem, e em breve tomarei algumas medidas para facilitar a leitura.

pr00525.gifpr00526.gifpr00527.gifpr00528.gif