sexta-feira, 21 de março de 2008

No limiar da Semana Santa

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Gustavo Corção



"Ainda uma vez estamos nós, caro leitor, enquanto por aqui andamos, no limiar da Semana das semanas, a Semana Santa, onde a alma antes de se rejubilar com os hinos da Ressurreição, contempla e sofre a Paixão do seu Senhor.


Toda nossa vida cristã, na medida em que é cristã, deveria transcorrer diante do mesmo sistema de referências com eixos em cruz, mas Deus reconhece nossa fraqueza e confiou à sua Igreja uma soma de recursos pedagógicos para reavivar em nós o nosso nome, o nosso compromisso, o nosso fraco amor. O ano litúrgico é um recurso didático, uma espécie de sabatina, mas difere numa coisa dos métodos humanos de recordação e representação. Quando celebramos um aniversário, uma data de nascimento, de feito cívico ou de festa familiar, é só afetiva a nossa rememoração. Os personagens mortos, os dias idos e vividos não reaparecem na festa senão sob as espécies de sinal e de lembrança. Outra coisa, porém, é a recordação de um mistério divino, como esta que constitui agora a Liturgia da Semana Santa: se o Cristo não torna a descer e a se encarnar e não torna a padecer, não é menos verdadeira uma espécie de descida espiritual desta grande semana. Em outras palavras, não somos só nós, Igreja Militante, que celebramos a Semana Santa, é toda a Igreja, são todos os Santos, e acima de tudo o próprio Deus que realiza na Liturgia uma repetição efetiva, real, da Encarnação e da Paixão.


E diante dos textos inesgotáveis, por mínima que seja a atenção, tornamos a notar o duplo aspecto divino-humano, em máxima densidade nos dias da Paixão de Nosso Senhor. Tudo o que aconteceu naquele tempo, que ficou registrado nos Evangelhos, tem a marca de um contraste tremendo que Deus ao mesmo tempo exalta e aplaina. Em nenhum outro ponto do Evangelho é tão evidente a transcendência da obra de Cristo, e a sua divindade; mas também em nenhum outro ponto é tão evidente o caminho percorrido pela Misericórdia até as profundezas de nossa miséria. Na leitura de todo o Evangelho antes destes textos de concentração máxima, aqui e ali, se nota o peso da carne, diria até o leve peso da carne na vida de Jesus. Aqui ele tem fome, acolá diz-se cansado. Aqui freme de cólera diante dos vendilhões do templo ou diante da hipocrisia dos fariseus, e acolá chora diante do amigo morto. Mas nas vésperas da Paixão, já diante da Ceia, a atmosfera de paixões se adensa. No Evangelho de Marcos, a Ceia da Quinta-feira Santa começa logo, quase diria ao levantar-se o pano, com uma conversa dramática: “E quando estavam à mesa e comiam, disse Jesus: - Em verdade vos digo que um de vós, que come comigo, me há de entregar”. E então os discípulos ficaram perturbados e começaram a dizer: “Sou eu?” e começaram a se gabar: “Ainda que todos se escandalizem a Teu respeito, eu não me escandalizarei”. E assim se vê que a festa tranqüila, a refeição de amizade, se carrega de tragédia. E nós sentimos ao mesmo tempo a infinita distância, e a infinita proximidade do Verbo Encarnado em todos os passos da Semana Santa. E se em cada episódio ganha realce a tristeza de nossa miséria, acentua-se também, pelo interesse de Jesus por nós, a nota de nossa dignidade. E assim, quando estivermos inclinados a desanimar de nossa humanidade temos o Cristo Crucificado a nos ensinar do alto da Cruz, “ex-cathedra”, o fundamento de nossa religião, de nossa metafísica, de nossa moral, de nossa política.


Às vezes nos escandalizamos quando vemos dentro da Igreja agitações, perturbações, divisões, parecidas com aquela que existiu e que ganhou singular destaque na Quinta-feira Santa em torno da Ceia. E até pensamos que seja virtude calar, quando alguns dão público espetáculo de seus desatinos, como se pudesse haver alguma vantagem em tornar visível aos olhos do mundo somente este aspecto triste, com o risco de alguns pensarem que os demais aspectos da Igreja são do mesmo quilate. A Liturgia da Semana Santa mostra, por assim dizer, a enorme franqueza com que a Igreja publica, cantando, os estremecimentos, os desentendimentos, as traições. Não se escandalizem, pois, os que descobrem, como se descobrissem a pólvora, que o drama continua, e que é diante do mesmo Cristo Crucificado que nós continuamos a clamar pelos séculos e séculos, movidos por nossa insegurança, por nosso sentimento de culpa, por nosso fraco amor: “Sou eu?”, “Sou eu? Eu não me escandalizarei ...” É claro que nós gostaríamos de ter maior entendimento, sobretudo com os mais próximos; é claro que nós lamentamos, que nós choramos, que nós sonhamos com uma paz e uma unidade aqui mesmo neste vale de lágrimas; é claro, claríssimo, que nem por ser permanente o drama da Paixão, devemos descuidar-nos de lutar por uma concórdia maior dentro da Igreja. Mas a grande lição da Semana Santa é a da confiança total posta no mérito do Cristo e na obra de redenção, da qual se tira um conforto sobrenatural, que não se parece com as fórmulas usuais de conforto que o mundo pode dar. Nossa religião é de Cruz: gloriemo-nos na Cruz de Nosso Senhor."

quarta-feira, 12 de março de 2008

Santo Alexandre




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Patriarca de Alexandria, data de nascimento incerta; morreu em 17 de Abril de 326. Descontada a sua própria grandeza, ele é proeminente pelo fato de sua indicação para a Sé dos Patriarcas ter excluído o heresiarca Ário do posto. Ário começou a ensinar suas heresias no ano 300 quando Pedro, por quem Ário foi excomungado, era Patriarca. Foi reinstalado por Achillas, o sucessor de Pedro, para ser feito Bispo. Quando Achillas morreu, Alexandre foi eleito, e depois disso Ário tirou seu disfarce. Alexandre lhe era particularmente repugnante, embora tenha sido tão tolerante com os primeiros erros de Ário que o clero mais próximo se revoltou. Finalmente, a heresia foi condenada em um Concílio realizado em Alexandria, e mais tarde, com ficou conhecido, no Concílio geral de Nicéia, cujas Atas acredita-se terem sido escritas por Alexandre. Um mérito adicional desse grande homem é que durante seu sacerdócio ele passou por sangrentas perseguições de Galério, Maximinus, e outros. Foi enquanto seu predecessor Pedro estava na prisão, esperando pelo martírio, que ele e Achillas foram bem sucedidos em retomar o pontificado, e intercederam pela reabilitação de Ário, que Pedro recusou inteiramente, declarando que Ário estava condenado à perdição. A recusa evidentemente teve pouco efeito, pois quando Achillas sucedeu Pedro, Ário tinha sido feito padre; quando Alexandre, por sua vez, chegou à Sé, a heresia já era tolerada. Vale recordar que o grande Atanásio sucedeu Alexandre e que o pontífice moribundo compeliu o futuro doutor da Igreja a aceitar o posto. Alexandre é descrito como “um homem tido na mais alta honra pelo povo e o clero, magnificente, liberal, eloqüente, justo, que amava a Deus e ao homem, devoto aos pobres, bom e doce para com todos.” Sua festa é realizada no dia 17 de Abril.

Teófilo de Antioquia



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Bispo de Antioquia (†após 181). O “Ad Autholycum”, o único escrito restante de Teófilo, é uma apologia do Cristianismo. Consiste de três livros, trabalhos efetivamente separados, escritos em diferentes épocas, e corresponde exatamente à descrição dada por Eusébio de “três trabalhos elementares” (Hist. eccl., IV, xxiv). O autor fala de si mesmo como um convertido do paganismo. Trata de assuntos como a idéia cristã de Deus, o relato da Escritura da origem do homem e do mundo comparado aos mitos pagãos. Em algumas ocasiões ele se refere (vinculado aos primeiros capítulos do Gênesis) a um trabalho histórico composto por ele próprio. Eusébio (op. cit.) fala das refutações de Marcião e Hermógenes, e de “livros catequéticos”. A estes São Jerônimo (De vir. illust., xxv) adiciona comentários aos Provérbios e aos Evangelhos. Ele fala dos comentários de Teófilo aos Evangelhos no prólogo de seus próprios comentários, e também de sua epístola “Ad Algasiam”, na qual aprendemos que Teófilo comentou sobre um Diatessaron ou Evangelho da Harmonia composto por ele próprio (“Teophilis... quattor Evangelistarum in unum opus compingens.”). Uma longa citação da mesma epístola é tudo o que resta desse comentário, pois a tentativa de Zahn de identificá-lo com um comentário em Latim atribuído a alguns manuscritos de Teófilo não encontrou partidários.

São Panfílio de Cesaréia

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Martirizado em 309. A Vida de Panfílio, escrita por Eusébio, se perdeu, mas por seu “Mártires da Palestina” aprendemos que Panfílio pertencia a uma nobre família de Beirute (na Fenícia), onde recebeu uma boa educação, e que abandonou sua terra natal após vender todas as suas propriedades e dá-las aos pobres. Ele se uniu aos “homens perfeitos”. De Fótio, que tomou suas informações da “Apologia de Orígenes”, de Panfílio, aprendemos que ele foi pra Alexandria onde seu professor era Piétrio, então o diretor da famosa Escola Catedrática.



Ele finalmente se estabeleceu em Cesaréia onde foi ordenado padre, coligiu sua famosa biblioteca, e estabeleceu a escola para o estudo teológico (Eusébio, “Hist. Eccl.”, VII, xxxii, 25). Devotou-se principalmente a produzir cópias acuradas da Sagrada Escritura. Testemunhos de seu zelo e cuidado em seu trabalho são encontrados nos de manuscritos. São Jerônimo (De Vir. Ill., lxxv) diz que Panfílio “transcreveu a maior parte dos trabalhos de Orígenes de seu próprio punho”, e que “essas transcrições ainda estão preservadas ma biblioteca de Cesaréia.” Ele mesmo era proprietário dos “vinte e cinco volumes dos comentários de Orígenes”, copiados por Panfílio, que ele via como a mais preciosa relíquia do mártir. Eusébio (Hist. Eccl., VI, xxxii) fala do catálogo da biblioteca contido em sua Vida de Panfílio. Uma passagem da Vida, mencionada por São Jerônimo (Adv. Rufin, I, ix) descreve como Panfílio sustentou estudantes pobres em suas necessidades, e não apenas emprestou, mas deu a eles cópias da Escritura, das quais mantinha um imenso suprimento. Da mesma forma, ele concedeu cópias a mulheres devotadas ao estudo. O grande tesouro da biblioteca em Cesaréia era a cópia da Hexapla do punho do próprio Orígenes, provavelmente a única cópia completa que ele fez. Foi consultada por São Jerônimo (“In Psalmos Comm.”, ed. Morin, pp. 5, 21; “In Epist. As Tit.”). A biblioteca certamente existia no sexto século, mas provavelmente não sobreviveu à tomada de Cesaréia pelos Sarracenos em 636 (Swete, “Introd. To O.T. in Greek”, 745).



A perseguição de Diocleciano começou em 303. Em 306 um homem chamado Afiano interrompeu o governador no ato de oferecer sacrifício, e pagou por seu atrevimento com um terrível martírio. Seu irmão Edésio, também um discípulo de Panfílio, sofreu o martírio aproximadamente no mesmo período em Alexandria em circunstâncias similares. A hora de Panfílio chegou em Novembro de 307. Ele foi trazido diante do governador e, ao se recusar a sacrificar, foi cruelmente torturado, e então mandado para a prisão. Lá, ele continuou copiando e corrigindo os manuscritos. Também compôs, em colaboração com Eusébio, uma “Apologia de Orígenes” em cinco volumes (Eusébio, mais tarde, adicionou um sexto). Panfílio e outros membros de sua família , homens “no pleno vigor de mente e corpo”, foram sentenciados, sem mais torturas, a serem decapitados em Fevereirro de 309. Enquanto a sentença era dada, um jovem chamado Porfírio- “o escravo de Panfílio”, “o amado discípulo de Panfílio”, que “foi instruído na literatura e na escrita”-, exigiu os corpos dos confessores para enterro. Ele foi cruelmente torturado e morto, e as notícias de seu martírio foram mandadas a Panfílio antes de sua própria execução.



Da “Apologia de Orígenes” somente o primeiro livro resta, e numa versão latina feita por Rufino. Ela começa descrevendo a amargura extravagante do sentimento contra Orígenes. Ele era um homem de profunda humildade, de grande autoridade na Igreja de seu tempo, e honrado com o sacerdócio. Ele era, acima de tudo, ansioso por manter a regra de fé que veio dos Apóstolos. A ortodoxia de sua doutrina concernente à Trindade e à Encarnação é então justificada por excertos de seus escritos. A seguir, nove acusações contra seus ensinamentos são confrontadas com passagens de suas obras. São Jerônimo escreveu em seu “De Viris Illustribus” que havia duas apologias- uma de Panfílio e outra de Eusébio. Ele descobriu seu erro quando a tradição de Rufino apareceu no auge da controvérsia origenista, e chegou à conclusão de que Eusébio era o único autor. Ele acusou Rufino, entre outras coisas, de pôr sob o nome do mártir o que foi na verdade o trabalho do heterodoxo Eusébio, e de suprimir passagens não-ortodoxas. Para a primeira acusação há evidências abundantes de que a “Apologia” foi um trabalho conjunto de Panfílio e Eusébio. Contra a segunda pode ser mencionado o testemunho negativo de Fótio que leu o original; “Fótio que era severo com o excesso diante da mais leve semelhança de Arianismo, na apologia de Orígenes que ele havia lido em Grego” (Ceillier). Os Cânones do alegado Concílio dos Apóstolos em Antioquia foram atribuídos por seu compilador (do fim do quarto século) a Panfílio (Harnack, “Spread of Christianity”, I, 86-101). A atribuição a Panfílio, por Gemádio, do tratado “Contra Mathematicos” foi devida à má interpretação do prefácio de Rufino à Apologia. Um sumário dos Atos dos Apóstolos, entre outros escritos associados a Eutálio, trazem em sua inscrição o nome de Panfílio (P. G.m, LXXXIX, 619 sqq.).

quinta-feira, 6 de março de 2008

Tratado sobre o Salmo 64

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De Santo Hilário, bispo de Poitiers

«O Templo de que falava era o seu Corpo»

O Senhor disse. "Aqui será o meu repouso para sempre" e "escolheu Sião como lugar de sua morada" (Sl 131,14). Mas Sião e o seu templo foram destruídos. Onde se erguerá então o trono eterno de Deus? Onde será o seu repouso para sempre? Onde será o seu templo para que nele habite? O apóstolo Paulo responde-nos: "O templo de Deus sois vós; em vós habita o Espírito de Deus" (1Cor 3,16). Eis a casa e o templo de Deus; eles estão cheios da sua doutrina e do seu poder. São o habitáculo da santidade do coração de Deus.

Mas esta morada, é Deus quem a edifica. Construída pela mão dos homens, não duraria, nem mesmo se fosse fundada sobre doutrinas humanas. Os nossos vãos labores e as nossas inquietações não bastam para a proteger. O Senhor resolve as coisas de outra maneira; ele não pôs os seus alicerces sobre terra solta nem sobre areias movediças, mas assentou-a sobre os profetas e os apóstolos (Ef 2,20); ela é incessantemente construída com pedras vivas (1Pe 2,5) e desenvolver-se-á até às últimas dimensões do corpo de Cristo. A sua edificação prossegue sem cessar; à sua volta erguem-se numerosas casas que se reúnem numa cidade grande e bem-aventurada (Sl 121,3).

Vem, segue-me

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De Santo Irineu de Lyon

Por ter seguido a Palavra de Deus, o seu apelo, espontânea e livremente na generosidade da sua fé, Abraão tinha-se tornado "o amigo de Deus" (Tg 2,23). Não foi por causa de uma necessidade premente que o Verbo de Deus procurou esta amizade com Abraão, porque ele era perfeito desde o princípio: "Antes que Abraão existisse, disse ele, Eu sou" (Jo 8,58). Foi para poder, na sua bondade, dar a Abraão a vida eterna… Também no princípio, não foi porque tivesse necessidade do homem que Deus moldou Adão, mas para ter alguém para cumular com os seus benefícios.

Também não foi porque tivesse necessidade do nosso serviço que ele nos ordenou que o seguíssemos, mas para nos alcançar a salvação. Porque seguir o Salvador é tomar parte na salvação, tal como seguir a luz é tomar parte na luz. Quando os homens estão na luz, não são eles que iluminam a luz e a fazem resplandecer, antes são iluminados e tornados resplandecentes por ela… Deus concede os seus benefícios aos que o servem porque o servem e aos que o seguem porque o seguem; mas não recebe deles nenhum benefício, porque é perfeito e não precisa de nada.

Pão para a Alma

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Tradução de Felipe Ortiz

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Ora, Ele que O ressuscitou dos mortos ressuscitará também a nós, desde que façamos a Sua vontade, adotemos Seus mandamentos como nossa regra de vida e amemos o que Ele ama; se nos abstivermos de todo tipo de transgressão, avareza, amor ao dinheiro, calúnia e falso testemunho; se não retribuirmos o mal com o mal, ofensa com ofensa, golpe com golpe, maldição com maldição; mas, ao contrário, tivermos em mente o que o Senhor ensinou quando disse: "Não julgueis, para que não sejais julgados".

São Policarpo
, "Epístola aos Filipenses".

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"As aves do céu não semeiam, nem segam." Deus lhes permitiu tomar de tudo e comer livremente. Como um homem injusto e mau que olha injustamente para as coisas dos outros, elas comem o que não lhes pertence. Foi-nos escrito que nós prestássemos atenção a elas para que compreendêssemos todas as parábolas e tivéssemos conhecimento; não para que nós mesmos nos tornássemos ladrões também, mas que em vez disso caminhássemos pela via dos justos dos tempos antigos, que eram agradáveis a Deus.

Das "Cartas" de São Pacômio ("Pafchomian Koinoina", vol. 3)

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Então, para que possamos saber o tamanho da distância à qual Ele o deslocou do jardim, a Sagrada Escritura nos esclarece esse fato adicional com as palavras: "O Senhor Deus lançou fora Adão e o pôs defronte ao jardim das delícias." Notem como cada um dos eventos provou ser uma ocasião de benevolência da parte do Senhor comum de todos, e como cada exemplo de castigo transborda de bondade. Quero dizer que a expulsão não foi o único sinal de amor e de bondade; também o foi sua localização defronte ao jardim, de modo que ele pudesse ter uma interminável angústia ao relembrar de que alturas ele caíra, e que se precipitara em tamanhas profundezas. Contudo, mesmo que a sua vista fosse causa de uma dor insuportável, ela entretanto foi ocasião de não pouco benefício: a vista constante provou ser para esse homem aflito um estímulo à cautela no futuro, a fim de que ele não incorresse de novo no mesmo pecado.

São João Crisóstomo, "Homilias Sobre o Gênesis", Vol. II

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É muito comum que vejamos viajantes que não se desviam do caminho certo mesmo que haja várias curvas; eles evitam as outras estradas uma vez que tenham sido advertidas sobre elas. Quanto mais uma pessoa se mantiver à distância dos caminhos errados em sua jornada, tanto mais ela perseverará no caminho certo. Assim, também a mente começará a ter consciência do verdadeiro sentido da realidade se ela evitar as coisas banais.

São Gregório de Nissa, "Da Glória à Glória".

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Orações pelo perdão dos pecados são mais eficazes quando acompanhadas de esmolas e jejum, e súplicas elevadas por tais auxílios sobem rapidamente aos ouvidos de Deus. Pois está escrito: "o homem misericordioso faz bem à sua própria alma" (Prov. 11:17), e nada é tão próprio de um homem quanto aquilo que ele gasta com seu próximo. Pois aquela parte de suas posses materiais com que ele atende os necessitados é transformada em riquezas eternas.

Dos "Sermões" de São Leão o Grande.
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Refrear o estômago torna o coração humilde; agradar o estômago torna o espírito orgulhoso.

São João Clímaco, "A Escada da Ascensão Divina".
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Aquele que conseguiu obter as virtudes e se enriqueceu de sabedoria espiritual vê as coisas claramente em sua verdadeira natureza. Conseqüentemente, acerca de todas as coisas ele tanto age quanto fala de um modo apropriado e nunca se encontra iludido. Pois é de acordo com o nosso uso certo ou errado das coisas que nós nos tornamos bons ou maus.

São Máximo, o Confessor, "Primeira Centúria sobre o Amor", na "Filocalia", vol. II.

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Que tribulação não suportarias para encontrar alguém que orasse por ti ao Senhor? Eis aqui quarenta, orando a uma só voz. Onde dois ou três estão reunidos em nome do Senhor, Ele está no meio deles. Quem duvida de Sua presença no meio de quarenta? O aflito debanda para os Quarenta, o jubiloso corre para eles; o primeiro em busca de alívio para suas tribulações, o último para a preservação de suas bênçãos.

São Basílio o Grande, "Homilia sobre os Quarenta Soldados Mártires de Sebaste".

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Aqueles que renunciaram a seus vícios precisam ainda buscar as virtudes que os farão crescer. Depois de dizer: "aqueles que vêm após Mim, neguem-se a si mesmos", o Senhor imediatamente acrescenta: "tomem cada dia a sua cruz, e sigam-Me". Há duas maneiras pelas quais podemos tomar a nossa cruz. Podemos abalar nossos corpos através da abstinência, e podemos afligir nossos corações através da compaixão pelo próximo.

São Gregório o Grande, "Sede Amigos de Deus".

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A mansidão é o arrimo da paciência, a porta -- ou antes, a mãe -- do amor, e a base do discernimento, pois está dito: "O Senhor ensinará aos mansos os Seus caminhos" (Salmo 24:9). Ela nos prepara para o perdão dos pecados; ela é a ousadia na oração, uma morada do Espírito Santo.

São João Clímaco, "Escada da Ascensão Divina".

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Ora, essas Escrituras divinamente inspiradas nos ensinam, tanto as do Velho quanto as do Novo Testamento. Pois o Deus dos dois Testamentos é um só, que no Velho Testamento predisse o Cristo que apareceu no Novo; e que pela Lei e pelos Profetas nos levou à escola do Cristo. "Pois antes que a Fé viesse, estávamos guardados debaixo da Lei", e "a Lei nos serviu de aio para nos conduzir ao Cristo".

São Cirilo de Jerusalém, "Instruções Catequéticas" (IV).

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Tal como um casamento e um funeral são exatamente o oposto um do outro, assim também são o orgulho e o desespero. Mas, como resultado da confusão causada pelos demônios, é possível ver os dois juntos.

São João Clímaco
, "A Escada da Ascensão Divina".

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Há as montanhas de especiarias: aqueles que recebem o Corpo do Senhor Jesus e o envolvem em lençóis com especiarias. Pois é na crença de que Jesus morreu, foi sepultado e ressuscitou que está o auge da verdadeira fé, alcançado pela mais excelente das virtudes. Portanto, onde é que se procura o Cristo? Indubitavelmente, é no coração de um Bispo prudente.

Santo Ambrósio de Milão, "Da Virgindade".
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O poder do Altíssimo então encobriu com Sua sombra aquela que não conhecia matrimônio, para que ela pudesse conceber, e proclamou seu ventre frutífero como um prado ameno para todos os que desejam colher a salvação, enquanto cantam: aleluia!

Do Hino Acatisto à Santíssima Mãe de Deus.

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Uma alma dócil guarda palavras de sabedoria, pois o Senhor guiará o manso em seu juízo - ou melhor, em seu entendimento.

São João Clímaco, "A Escada da Ascensão Divina".

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Assim, uma mulher que outrora havia sido lasciva e culpada de sensualidade (um pecado difícil de apagar) não se perdeu do caminho da salvação: pois ela buscou refúgio Naquele que sabe como salvar e que é capaz de erguer o homem dos abismos da impureza. Ela, portanto, não fracassou em seu intento. Mas o tolo fariseu -- conta-nos o bendito Evangelista -- se escandalizou.

São Cirilo de Alexandria, "Comentário ao Evangelho de São Lucas".