terça-feira, 27 de novembro de 2007

Conversão

Fonte

De São João Crisóstomo:

O mais grave é que, encontrando-nos neste estado [de pecado], não pensamos na deformidade da nossa alma nem nos damos conta do seu aspecto horrível. Quando te sentas numa barbearia para cortar o cabelo, imediatamente tomas na mão um espelho e olhas e voltas a olhar como vai ficando o corte e perguntas aos presentes e ao próprio barbeiro se ficou bem o topete da frente. E, mesmo que já sejas um velho, muitas vezes não te envergonhas da mania de imitar a gente jovem. Mas de que a nossa alma esteja deformada, e até de que tenha assumido o aspecto de uma fera [...], nem sequer nos damos conta. No entanto, também aqui dispomos de um espelho espiritual, muito melhor e mais proveitoso que o outro, material. Este espelho não somente põe diante de nós a nossa deformidade, mas até, se o quisermos, pode transformá-la em beleza incomparável. Este espelho é a memória dos homens santos, as histórias da sua vida bem-aventurada, a lição das Escrituras, as leis que por Deus nos foram dadas. Se alguma vez decidires olhar para as imagens desses santos, não somente verás a deformidade da tua própria alma, mas, assim que a vires, não precisarás de mais nada para libertar-te dessa fealdade. Tão proveitoso é para nós esse espelho e com tal facilidade realiza a transformação.

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Canto Gregoriano

sábado, 3 de novembro de 2007

Olavo de Carvalho na TV

 Sugiro esse vídeo a meus caríssimos leitores, conhecedores da capacidade, da honestidade e da abrangência filosófica do Prof. Olavo de Carvalho. Em seu programa True Outspeak de 29 de Outubro, ele aborda assuntos de imensa importância: o aborto e a engenharia comportamental.

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

O Mistério da Encarnação

De São Pedro Crisólogo


Quando a Virgem concebe, virgem dá à luz e permanece virgem, isso não entra na ordem da natureza, mas dos sinais divinos; não é segundo a razão humana, mas conforme ao poder de Deus; é o Criador que actua, não a natureza humana; não é caso comum, mas único; é obra divina e não humana. O nascimento de Cristo não foi consequência necessária da natureza, mas do poder de Deus. Foi o mistério da piedade, a redenção da humanidade. Aquele que, sem nascer, fez o homem do barro intacto, fez-Se homem nascendo de um corpo também intacto. A mão que se dignou tomar o barro para formar o nosso corpo, também se dignou tomar a nossa carne para nos salvar. Por isso, o facto de o Criador estar na sua criatura e de Deus habitar em carne humana, é uma honra para a criatura e não uma afronta para o Criador.
Ó homem, porque te consideras tão vil, tu que és tão precioso para Deus? Porque é que, sendo tu tão honrado por Deus, tanto te desonras a ti mesmo? Porque perguntas de que é que foste feito e não queres saber para que foste feito? Porventura todo este mundo que vês não foi feito para ser tua morada? Para ti foi criada a luz que dissipa as trevas que te circundam; para ti foi regulada a sucessão dos dias e das noites; para ti foi iluminado o céu com o variado fulgor do sol, da lua e das estrelas; para ti foi ornamentada a terra com flores, bosques e frutos; para ti foi criada a admirável multidão dos seres vivos que habitam nos ares, nos campos e nas águas, a fim de que uma triste solidão te não ensombrasse a alegria do mundo recém-criado.
Mas o teu Criador pensou no modo de aumentar ainda mais a tua glória: gravou em ti a sua própria imagem, para que houvesse na terra uma imagem visível do Criador invisível, e colocou-te como seu representante sobre as coisas terrenas, para que um domínio tão vasto como é o mundo não ficasse privado de um vicário do seu Senhor.
Deus, na sua bondade, assumiu em Si o que para Si tinha feito em ti; quis ser visto realmente no homem, onde antes apenas era contemplado como imagem; quis que nele fosse uma realidade o que antes era apenas uma semelhança.
Cristo nasce, portanto, para renovar com o seu nascimento a natureza corrompida; fez-Se criança, quis ser alimentado, passou pelas diversas idades da vida humana, para restaurar a única idade perfeita e permanente como Ele a tinha criado; toma sobre Si a vida humana, para que o homem não volte a cair; tinha-o feito terreno e torna-o celeste; tinha-lhe dado uma alma humana e agora comunica-lhe o espírito divino; e assim eleva o homem à dignidade divina, para que desapareça tudo o que nele havia de pecado, de morte, de fadiga, de sofrimento, de terreno, pela graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, que é Deus e vive e reina com o Pai na unidade do Espírito Santo, agora e sempre e pelos infinitos séculos dos séculos. Amen.

Ignorar as Escrituras é ignorar a Cristo

Fonte

De São Jerônimo

Cumpro o meu dever, obedecendo aos preceitos de Cristo, que diz: Examinai as Escrituras, e: Procurai e encontrareis, para que não tenha de ouvir o que foi dito aos judeus: Estais enganados, porque não conheceis as Escrituras nem o poder de Deus. Se, de facto, como diz o apóstolo Paulo, Cristo é o poder de Deus e a sabedoria de Deus, aquele que não conhece as Escrituras não conhece o poder de Deus nem a sua sabedoria. Ignorar as Escrituras é ignorar a Cristo.
Por isso quero imitar o pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e antigas, e também a esposa que diz no Cântico dos Cânticos: Guardei para ti, meu amado, frutos novos e antigos. Assim comentarei o livro de Isaías, apresentando o não apenas como profeta, mas também como evangelista e apóstolo. Ele próprio diz, referindo se a si e aos outros evangelistas: Como são belos, sobre os montes, os pés dos que anunciam boas novas, dos que anunciam a paz. E Deus fala lhe como a um apóstolo: A quem hei de enviar? Quem irá ter com este povo? E ele respondeu: Eis me aqui, enviai me.
Ninguém julgue que eu desejo explicar de modo completo, em tão poucas palavras, o conteúdo deste livro da Escritura, que abrange todos os mistérios do Senhor. Efectivamente, no livro de Isaías o Senhor é preanunciado como o Emanuel que nasceu da Virgem, como autor de prodígios e milagres, como morto, sepultado e ressuscitado de entre os mortos e como Salvador de todos os povos. Que dizer da sua doutrina sobre física, ética e lógica? Este livro é como um compêndio de todas as Escrituras e contém em si tudo o que a língua humana pode exprimir e a inteligência dos mortais pode compreender. Da profundidade dos seus mistérios dá testemunho o próprio autor quando escreve: Para vós toda a visão será como as palavras de um livro selado. Se se dá a quem sabe ler, dizendo: «Lê o por favor», ele responde: «Não posso, porque está selado». E se se dá a quem não sabe ler, dizendo: «Lê o por favor», ele responde: «Não sei ler».
E se parece débil a alguém esta reflexão, oiça o que diz o Apóstolo: As aspirações dos profetas sejam submetidas aos profetas, de modo que tenham possibilidade de falar ou de se calar. Portanto, os Profetas compreendiam o que diziam e por isso todas as suas palavras estão cheias de sabedoria e de sentido. Aos seus ouvidos não chegavam apenas as vibrações da voz; Deus falava ao seu espírito, como diz outro profeta: O Anjo falava em mim; e também: Clama nos nossos corações: Abba, Pai; e ainda: Escutarei o que diz o Senhor.

A Encarnação do Verbo

Do Tomus ad Flavianum, de São Leão Magno, papa – século V

Na encarnação do Verbo, a humildade foi acolhida pela majestade; a fraqueza, pela força; a mortalidade, pela eternidade. Para atender à dívida de nossa condição, a natureza inviolável uniu-se à natureza passível. Deste modo, bem condizente com nossa recuperação, o único e mesmo mediador entre Deus e os homens, o homem Jesus Cristo, poderia morrer mediante uma das naturezas e não morrer pela outra[1].

Portanto, na íntegra e perfeita natureza de verdadeiro homem, nasceu o verdadeiro Deus, todo (Deus) no que lhe é próprio, todo (homem) no que é nosso. Referimo-nos ao que é nosso, ao que no início o Criador criou em nós e que assumiu para restaurá-lo[2].

Porque nem o mais leva vestígio se encontrou no Salvador daquilo que o Sedutor sugeriu e que o homem, enganado, admitiu. E, pelo fato de ter aceitado a comunhão com as fraquezas humanas, não quer isto dizer que se tenha tornado participante de nossos delitos. Assumiu a forma de escravo, sem a mancha do pecado, engrandecendo o humano, sem diminuir o divino. Porque o abaixamento, pelo qual o invisível se mostrou visível e o Criador de tudo quis ser um dos mortais, foi uma condescendência de misericórdia, não uma falha do poder. Por conseguinte, aquele que, na forma de Deus, fez o homem, este mesmo fez-se homem, na forma de escravo[3].

Entrou, pois, neste mundo insignificante o Filho de Deus, descendo do trono celeste, sem se afastar da glória paterna, gerado por nova ordem, novo nascimento[4]. Nova ordem, porque, invisível em si, fez-se visível como nós; incompreensível, quis ser compreendido; vivo antes dos tempos, começou a existir no tempo. O Senhor do universo envolvendo na sombra a imensidão de sua majestade, tomou sobre si a forma de servo; o Deus impassível não rejeitou ser homem passível, e o imortal, submeter-se às leis da morte. Aquele que é verdadeiro Deus, ele mesmo é verdadeiro homem; e nesta unidade nada há de falso; estão um para o outro, a humildade do homem e a grandeza da Divindade.

E do mesmo modo como Deus não muda pela comiseração (de se fazer um de nós), também o homem não é esmagado pela dignidade (de ter sua natureza unida a uma Pessoa divina). Cada uma das naturezas age, em comunhão com a outra, segundo o que lhe é próprio: o Verbo opera o que compete ao Verbo, e a carne realiza o que é da carne[5]. Um refulge com os milagres, a outra sucumbe aos maus tratos. E como o Verbo não se afasta da igualdade com a glória do Pai, também a carne não deixa a natureza de nossa raça. É um só o mesmo – há que se repetir muitas vezes – verdadeiramente Filho de Deus e verdadeiramente filho do homem. Deus, porque “no princípio era o Verbo, e o Verbo era junto de Deus, e o Verbo era Deus”; homem porque “o Verbo se fez carne e habitou entre nós”.



--------------------------------------------------------------------------------

[1] Em Jesus, a grandeza da natureza divina uniu-se à pobreza da natureza humana. Em Nosso Senhor há uma só Pessoa divina, aquela do Filho eterno. Esse Filho sempre teve a natureza divina; sem deixar de ser Deus, assumiu, no entanto, a natureza humana igual à nossa. Na Encarnação, Deus se humanizou!

[2] Aqui São Leão insiste em dois pontos importantes: Jesus é Deus perfeito e homem perfeito; a natureza humana que Jesus assumiu não foi a nossa natureza quebrada, mas a natureza humana íntegra, como Deus sonhara antes do pecado do homem. Em outras palavras: Jesus nunca teve pecado e, por isso, é mais humano que nós, humanamente perfeito.

[3] A fraqueza humana que o Filho eterno assumiu na encarnação não é uma fraqueza moral, mas a fraqueza própria da nossa natureza como criatura, além de ter que sofrer as conseqüências, de viver e conviver num mundo e numa sociedade profundamente marcados pelo pecado e suas conseqüências: traição, inveja, dureza, descrença. Sendo santíssimo, Jesus sofreu tudo isso e com tudo isso teve que viver.

[4]: Há, aqui, um aspecto da encarnação que, geralmente, não se enfatiza: o Filho fez-se homem: sendo uma pessoa divina infinita, eterna e imutável, assumiu uma natureza humana miúda e finita, mutável e limitada como a nossa. No entanto, sua natureza divina, que é a mesma do Pai e do Espírito Santo, é infinita, imutável e eterna. Resultado: de um modo que jamais nós compreenderemos nem de longe, o Filho que, como homem estava no seio de Maria ou reclinado no presépio ou andando pela Galiléia ou morrendo na cruz, como Deus (na sua natureza humana) jamais deixou a Direita do Pai e preenche e sustenta o céu e a terra! É absolutamente impossível compreender este mistério, como também é absolutamente necessário afirmar e crer nesta misteriosa realidade. Nunca esqueçamos: Jesus é uma pessoa divina, com uma natureza verdadeiramente divina (a mesma do Pai e do Espírito Santo) e verdadeiramente humana (semelhante à nossa). Esta é a fé da Igreja, a nossa fé.

[5] Jesus é homem perfeito e Deus perfeito: na sua natureza divina, ele age como Deus, na sua natureza humana, ele age como homem. Podemos esquematizar assim: Quem age? Sempre a pessoa divina do Verbo, Filho de Deus. Como age? Quando faz o que é próprio de Deus, age na natureza divina; quando faz o que é próprio do homem, age na natureza humana. Por exemplo: na natureza divina sustenta o céu e a terra; na natureza humana tem sede e se sente cansado.

Dia de Finados

Subscrevo o que disse o confrade Réprobo, ao referir-se ao conflito interior que nos vem no Dia de celebrar a Memória de nossos mortos:
Cada visita ao Cemitério, mormente em dias sinificativos, desencadeia o irremovível embate entre a Esperança de que Aqueles a Que queremos tenham alcançado a Felicidade e o egoísmo do desejo - em saudade encapotado - de Os termos entre nós. Como permitir a coexistência pacífica da urgência da proximidade terrena com a tranquilidade ancorada na Fé? Uma absoluta unilateralidade repousando na certeza de que Os que nos deixaram foram para Melhor Sítio também não seria estimável, pois demasiada candidez gera insensibilidade. Paradoxalmente a solução está no que já os melhores de nós alcançam: articular a dor sentida como peça rumo ao Ideal Revelado, sem que sofrer permita resvalar para o desespero. Eu ainda tenho muito que andar.