quarta-feira, 12 de setembro de 2007
O Corcunda me indicou!
Um blogueiro luso por quem tenho o maior respeito escreveu um post a respeito desse blog no seu Pasquim da Reacção. Corcunda, da elite intelectual portuguesa, sempre me deslumbrou com sua pena hábil e sua esplêndida brevidade pedagógica. Ele conseguiu aquela união de que falava Horácio: a que deve existir entre a concisão e a clareza. Além disso, o gajo é profundamente irônico. Não sei como os portugueses conseguem contar uma anedota usando apenas uma palavra, mas já confirmei a ocorrência desse fato várias vezes lendo os Srs. Miguel Castelo Banco, Mendo Ramires e Paulo Cunha Porto. E eu, habitante da Terra de Santa Cruz, hoje faço uma apologia da terra de meus antepassados, das regiões ultramarinas das quais escreve o Corcunda. Portugal sempre me deu a impressão de ser um pai, a Nação admirável que cuidou do Brasil, o emancipou, e hoje tem de suportar a horrenda estupidez de seu filho, que sepulta gênios e glorifica imbecis. Embora minha família tenha origens em vários locais da Europa e do Oriente, foram sempre as festas portuguesas que alegraram minha infância, e, atualmente, são os gigantes da literatura e também da filosofia da "Ditosa Pátria" que me encorajam. Agradeço profusamente por essa recomendação generosa feita por um estudioso honesto como o Corcunda. Como dizem os brasileiros, valeu! E como dizem na "terrinha", bem haja!
sábado, 8 de setembro de 2007
Magnitude do Primeiro Pecado
Fonte
De Santo Agostinho
Uma pena eterna parece dura e injusta para a sensibilidade humana porque, nesta fraqueza das nossas faculdades destinadas à morte, falta aquele sentido da altíssima e puríssima sabedoria com que se possa conceber quão grande foi o crime cometido na primeira queda. Efetivamente, quanto mais o homem gozava de Deus com tanto maior impiedade o homem abandonou a Deus e se tornou digno dum mal eterno aquele que em si destruiu um bem que poderia ser eterno. Daí resulta que se tenha tornado em massa condenada (massa damnata) todo o gênero humano— porque o primeiro que esse crime cometeu, foi punido com a sua estirpe, que nele estava radicada, de maneira que ninguém é libertado deste justo e merecido castigo a não ser por uma graça misericordiosa e imerecida; e assim se distribui o gênero humano: nuns patenteia-se o que pode a graça misericordiosa, e noutros a justa vindicta. Não poderia mostrar-se uma coisa e outra — graça e vindicta — em todos porque, se todos ficassem nas penas duma justa condenação, em nenhum se patentearia a graça misericordiosa e, ao invés, se todos fossem transferidos das trevas para a luz, em nenhum se patentearia a verdade da punição. Neste caso estão muitos mais homens do que naquele para que, assim, se mostre o que a todos era devido. E, se a todos fosse dado esse devido, ninguém teria a reprovar justificadamente a justiça do vingador; porque, porém, são em tão grande número os libertados, é caso para que sejam dadas as maiores graças pelo dom gratuito do libertador.
Fonte: A Cidade de Deus, Volume III, Fundação Calouste Gulbenkian, página 2171.
De Santo Agostinho
Uma pena eterna parece dura e injusta para a sensibilidade humana porque, nesta fraqueza das nossas faculdades destinadas à morte, falta aquele sentido da altíssima e puríssima sabedoria com que se possa conceber quão grande foi o crime cometido na primeira queda. Efetivamente, quanto mais o homem gozava de Deus com tanto maior impiedade o homem abandonou a Deus e se tornou digno dum mal eterno aquele que em si destruiu um bem que poderia ser eterno. Daí resulta que se tenha tornado em massa condenada (massa damnata) todo o gênero humano— porque o primeiro que esse crime cometeu, foi punido com a sua estirpe, que nele estava radicada, de maneira que ninguém é libertado deste justo e merecido castigo a não ser por uma graça misericordiosa e imerecida; e assim se distribui o gênero humano: nuns patenteia-se o que pode a graça misericordiosa, e noutros a justa vindicta. Não poderia mostrar-se uma coisa e outra — graça e vindicta — em todos porque, se todos ficassem nas penas duma justa condenação, em nenhum se patentearia a graça misericordiosa e, ao invés, se todos fossem transferidos das trevas para a luz, em nenhum se patentearia a verdade da punição. Neste caso estão muitos mais homens do que naquele para que, assim, se mostre o que a todos era devido. E, se a todos fosse dado esse devido, ninguém teria a reprovar justificadamente a justiça do vingador; porque, porém, são em tão grande número os libertados, é caso para que sejam dadas as maiores graças pelo dom gratuito do libertador.
Fonte: A Cidade de Deus, Volume III, Fundação Calouste Gulbenkian, página 2171.
Dos que julgam que para ninguém haverá pena de condenação eterna
Fonte
De Santo Agostinho
E agora reparo que devo ocupar-me dos nossos misericordiosos e pacatamente discutir com aqueles que não querem crer que venha a haver uma pena eterna nem para todos os homens que o mais justo dos juízes julgar merecedores do suplício da Geena nem mesmo, para alguns deles. Julgam que, decorridos certos períodos de tempo, mais longos ou mais breves, conforme a importância do pecado de cada um, serão todos libertados. Nesta questão o mais misericordioso foi com certeza Orígenes, que acreditou que o próprio Diabo e os seus anjos, após suplícios mais graves e mais prolongados, conforme as suas culpas, devem ser tirados dos seus tormentos e associados aos santos anjos. Mas, não sem razão, a Igreja condenou-o por causa disso e por causa de outros casos, principalmente por causa daqueles períodos de felicidade e de desgraça, que se alternam sem cessar, e daquele vaivém sem fim, desta para aquela e daquela para esta, em períodos fixos de séculos. De resto, ele perdeu aquilo que o fazia parecer misericordioso, criando para os santos verdadeiros misérias pelas quais eles sofreriam penas e falsas beatitudes nas quais já não teriam o gozo do bom sempiterno, verdadeiro e seguro, isto é, certo e sem receios. Mas quão diversamente, devido ao sentimento humano, se desencaminha a misericórdia dos que consideram temporais os sofrimentos dos homens condenados por tal juízo, mas eterna a felicidade de todos os que, mais cedo ou mais tarde, foram libertados! Se esta opinião é boa e verdadeira porque é misericordiosa, será tanto melhor e mais verdadeira quanto mais misericordiosa for. Alargue-se, portanto, e torne-se mais funda a fonte dessa misericórdia até aos anjos condenados e que sejam libertados das suas penas, pelo menos depois de muitos e larguíssimos séculos, tanto quantos quisermos! Porque é que ela se derrama por toda a natureza humana e, quando chegar à natureza angélica, logo se estanca? Não ousam, porém, estender a sua compaixão até chegarem à libertação do próprio Diabo. Na verdade, se alguém o ousasse, venceria, sem dúvida, os outros. Todavia, cairia num erro tanto mais exagerado e contrário ao reto sentido da palavra de Deus, quanto maior sentimento de clemência julga ter.
Fonte: A Cidade de Deus, Volume III, Fundação Calouste Gulbenkian, páginas 2185-2186.
De Santo Agostinho
E agora reparo que devo ocupar-me dos nossos misericordiosos e pacatamente discutir com aqueles que não querem crer que venha a haver uma pena eterna nem para todos os homens que o mais justo dos juízes julgar merecedores do suplício da Geena nem mesmo, para alguns deles. Julgam que, decorridos certos períodos de tempo, mais longos ou mais breves, conforme a importância do pecado de cada um, serão todos libertados. Nesta questão o mais misericordioso foi com certeza Orígenes, que acreditou que o próprio Diabo e os seus anjos, após suplícios mais graves e mais prolongados, conforme as suas culpas, devem ser tirados dos seus tormentos e associados aos santos anjos. Mas, não sem razão, a Igreja condenou-o por causa disso e por causa de outros casos, principalmente por causa daqueles períodos de felicidade e de desgraça, que se alternam sem cessar, e daquele vaivém sem fim, desta para aquela e daquela para esta, em períodos fixos de séculos. De resto, ele perdeu aquilo que o fazia parecer misericordioso, criando para os santos verdadeiros misérias pelas quais eles sofreriam penas e falsas beatitudes nas quais já não teriam o gozo do bom sempiterno, verdadeiro e seguro, isto é, certo e sem receios. Mas quão diversamente, devido ao sentimento humano, se desencaminha a misericórdia dos que consideram temporais os sofrimentos dos homens condenados por tal juízo, mas eterna a felicidade de todos os que, mais cedo ou mais tarde, foram libertados! Se esta opinião é boa e verdadeira porque é misericordiosa, será tanto melhor e mais verdadeira quanto mais misericordiosa for. Alargue-se, portanto, e torne-se mais funda a fonte dessa misericórdia até aos anjos condenados e que sejam libertados das suas penas, pelo menos depois de muitos e larguíssimos séculos, tanto quantos quisermos! Porque é que ela se derrama por toda a natureza humana e, quando chegar à natureza angélica, logo se estanca? Não ousam, porém, estender a sua compaixão até chegarem à libertação do próprio Diabo. Na verdade, se alguém o ousasse, venceria, sem dúvida, os outros. Todavia, cairia num erro tanto mais exagerado e contrário ao reto sentido da palavra de Deus, quanto maior sentimento de clemência julga ter.
Fonte: A Cidade de Deus, Volume III, Fundação Calouste Gulbenkian, páginas 2185-2186.
A Vontade Eterna e Imutável de Deus
Fonte
De Santo Agostinho
É certo que muitas coisas más são pelos maus praticadas contra a vontade de Deus. Mas tão grande é a Sua sabedoria e tamanha é a Sua virtude que tudo, mesmo o que parece contrário à Sua vontade, tende para os fins e resultados que Ele antecipadamente viu como bons e justos. Por isso, quando se diz que Deus muda de vontade, que, por exemplo, fica irado contra aqueles para quem era brando, - não foi Ele mas foram os homens que mudaram e de certo modo o acham mudado nas mudanças que experimentam: tal qual como o Sol muda para os olhos enfermos - de suave torna-se de certa maneira áspero, de deleitosos torna-se molesto, embora ele próprio continue a ser o mesmo que era. Também se chama de Deus a vontade que Ele suscita nos corações dos que obedecem aos seus mandamentos e da qual diz o Apóstolo:
É Deus que opera em nós o próprio querer (Deus enim est, qui operatur in nobis et velle - Filipenses 2:13);
como se chama de Deus não só a justiça pela qual Ele próprio é justo, mas também a que Ele faz no homem que por Ele é justificado. Da mesma forma se chama de Deus a lei que é antes dos homens mas que por Ele foi dada; pois eram realmente homens aqueles a quem Jesus dizia:
Está escrito na vossa lei (In lege vestra scriptum est -João 8:17),
embora noutra passagem leiamos:
A lei do seu Deus está no seu coração (Lex Dei ejus in corde ejus -Salmo 37:31).
Conforme esta vontade que Deus produz nos homens, diz-se que Ele quer o que Ele próprio não quer, mas faz com que os seus isso queiram, como se diz que Ele conheceu o que Ele fez que fosse conhecido por aqueles que isso ignoravam. Pois, nem quando o Apóstolo diz:
Mas conhecendo agora a Deus, ou melhor, conhecidos de Deus (Nunc autem cognoscentes Deum, immo cogniti a Deo -Gálatas 4:9),
é lícito que acreditemos que Deus conheceu então os que conhecia antes da criação do mundo; mas diz-se que conheceu então o que fez com que então fosse conhecido. Destas formas de expressão recordo-me que já se tratou nos livros anteriores. É, pois, conforme essa vontade (pela qual, como dizemos, Deus quer o que faz querer ao outros, pelos quais são ignoradas as coisas futuras) que Ele quer muitas coisas mas não é Ele que as faz.
Com efeito, os seus santos, com uma vontade santa por Ele inspirada, querem que se façam muitas coisas que não chegam a ser feitas; como rogam piedosa e santamente por alguns, mas Ele não faz o que lhe pedem, sendo Ele quem, pelo Seu Espírito, causa neles essa vontade de orar. Por isso, quando os santos querem e rogam, em conformidade com Deus, que cada um seja salvo, podemos dizer, segundo esse tipo de expressões: Deus quer mas não faz; dizemos então que Ele quer no sentido de que Ele faz com que os outros queiram. Mas, conforme essa vontade, que é sua e eterna como a sua presciência, claro está que tudo o que quis no Céu e na Terra, tanto passado e presente como futuro, fê-lo já. Mas antes que chegue o tempo em que se cumprirá como Ele quis o que antes de todos os tempos Ele previu e determinou, nós dizemos: Acontecerá quando Deus quiser; mas se ignoramos dum acontecimento, não só o momento (tempus) em que virá a acontecer, mas também se chegará a acontecer, então dizemos: Acontecerá se Deus quiser: não porque Deus venha a ter então uma vontade nova que antes não tinha, mas porque só então acontecerá aquilo que desde toda a eternidade está preparado na sua vontade imutável.
Extraído de: A Cidade de Deus - De Civitate Dei.
De Santo Agostinho
É certo que muitas coisas más são pelos maus praticadas contra a vontade de Deus. Mas tão grande é a Sua sabedoria e tamanha é a Sua virtude que tudo, mesmo o que parece contrário à Sua vontade, tende para os fins e resultados que Ele antecipadamente viu como bons e justos. Por isso, quando se diz que Deus muda de vontade, que, por exemplo, fica irado contra aqueles para quem era brando, - não foi Ele mas foram os homens que mudaram e de certo modo o acham mudado nas mudanças que experimentam: tal qual como o Sol muda para os olhos enfermos - de suave torna-se de certa maneira áspero, de deleitosos torna-se molesto, embora ele próprio continue a ser o mesmo que era. Também se chama de Deus a vontade que Ele suscita nos corações dos que obedecem aos seus mandamentos e da qual diz o Apóstolo:
É Deus que opera em nós o próprio querer (Deus enim est, qui operatur in nobis et velle - Filipenses 2:13);
como se chama de Deus não só a justiça pela qual Ele próprio é justo, mas também a que Ele faz no homem que por Ele é justificado. Da mesma forma se chama de Deus a lei que é antes dos homens mas que por Ele foi dada; pois eram realmente homens aqueles a quem Jesus dizia:
Está escrito na vossa lei (In lege vestra scriptum est -João 8:17),
embora noutra passagem leiamos:
A lei do seu Deus está no seu coração (Lex Dei ejus in corde ejus -Salmo 37:31).
Conforme esta vontade que Deus produz nos homens, diz-se que Ele quer o que Ele próprio não quer, mas faz com que os seus isso queiram, como se diz que Ele conheceu o que Ele fez que fosse conhecido por aqueles que isso ignoravam. Pois, nem quando o Apóstolo diz:
Mas conhecendo agora a Deus, ou melhor, conhecidos de Deus (Nunc autem cognoscentes Deum, immo cogniti a Deo -Gálatas 4:9),
é lícito que acreditemos que Deus conheceu então os que conhecia antes da criação do mundo; mas diz-se que conheceu então o que fez com que então fosse conhecido. Destas formas de expressão recordo-me que já se tratou nos livros anteriores. É, pois, conforme essa vontade (pela qual, como dizemos, Deus quer o que faz querer ao outros, pelos quais são ignoradas as coisas futuras) que Ele quer muitas coisas mas não é Ele que as faz.
Com efeito, os seus santos, com uma vontade santa por Ele inspirada, querem que se façam muitas coisas que não chegam a ser feitas; como rogam piedosa e santamente por alguns, mas Ele não faz o que lhe pedem, sendo Ele quem, pelo Seu Espírito, causa neles essa vontade de orar. Por isso, quando os santos querem e rogam, em conformidade com Deus, que cada um seja salvo, podemos dizer, segundo esse tipo de expressões: Deus quer mas não faz; dizemos então que Ele quer no sentido de que Ele faz com que os outros queiram. Mas, conforme essa vontade, que é sua e eterna como a sua presciência, claro está que tudo o que quis no Céu e na Terra, tanto passado e presente como futuro, fê-lo já. Mas antes que chegue o tempo em que se cumprirá como Ele quis o que antes de todos os tempos Ele previu e determinou, nós dizemos: Acontecerá quando Deus quiser; mas se ignoramos dum acontecimento, não só o momento (tempus) em que virá a acontecer, mas também se chegará a acontecer, então dizemos: Acontecerá se Deus quiser: não porque Deus venha a ter então uma vontade nova que antes não tinha, mas porque só então acontecerá aquilo que desde toda a eternidade está preparado na sua vontade imutável.
Extraído de: A Cidade de Deus - De Civitate Dei.
A Vocação dos Eleitos
Fonte
De Santo Agostinho
Procuremos entender a vocação própria dos eleitos, os quais não são eleitos porque creram, mas são eleitos para que cheguem a crer. O próprio Senhor revela a existência desta classe de vocação ao dizer: Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi (Jo 15: 16). Pois, se fossem eleitos porque creram, tê-lo-iam escolhido antes ao crer nele e assim merecerem ser eleitos. Evita, porém, esta interpretação aquele que diz: Não fostes vós que me escolhestes.
Não há dúvida que eles também o escolheram, quando nele acreditaram. Daí o ter ele dito: Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi, não porque não o escolheram para ser escolhidos, mas para que o escolhessem, ele os escolheu. Isso porque a misericórdia se lhes antecipou (Sl 53:11) segundo a graça, não segundo uma dívida. Portanto, retirou-os do mundo quando ele vivia no mundo, mas já eram eleitos em si mesmos antes da criação do mundo.
Esta é a imutável verdade da predestinação da graça. Pois, o que quis dizer o Apóstolo: Nele ele nos escolheu antes da fundação do mundo?(Ef 1:4). Com efeito, se de fato está escrito que Deus soube de antemão os que haveriam de crer, e não que os haveria de fazer que cressem, o Filho fala contra esta presciência ao dizer: Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi. Isto daria a entender que Deus sabia de antemão que eles o escolheriam para merecerem ser escolhidos por ele.
Conseqüentemente, foram escolhidos antes da criação do mundo mediante a predestinação na qual Deus sabia de antemão todas as suas futuras obras, mas são retirados do mundo com a vocação com que Deus cumpriu o que predestinou. Pois, o que predestinou, também os chamou com a vocação segundo seu desígnio. Chamou os que predestinou e não a outros; predestinou os que chamou, justificou e glorificou (Rm 8:30) e não a outros com a consecução daquele fim que não tem fim.
Portanto, Deus escolheu os crentes, mas para que o sejam e não porque já o eram. Diz o apóstolo Tiago: Não escolheu Deus os pobres em bens deste mundo para serem ricos na fé e herdeiros do Reino que prometeu aos que o amam? (Tg 2:5). Portanto, ao escolher, fá-los ricos na fé, assim como herdeiros do Reino. Pois, com razão, se diz que Deus escolheu nos que crêem aquilo pelo qual os escolheu para neles realizá-lo.
Pergunto: quem ouvir o Senhor, que diz: Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi, terá atrevimento de dizer que os homens têm fé para ser escolhidos, quando a verdade é que são escolhidos para crer? A não ser que se ponham contra a sentença da Verdade e digam que escolheram antes a Cristo aqueles aos quais ele disse: Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi.
Fonte: A GRAÇA II, Editora PAULUS.
De Santo Agostinho
Procuremos entender a vocação própria dos eleitos, os quais não são eleitos porque creram, mas são eleitos para que cheguem a crer. O próprio Senhor revela a existência desta classe de vocação ao dizer: Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi (Jo 15: 16). Pois, se fossem eleitos porque creram, tê-lo-iam escolhido antes ao crer nele e assim merecerem ser eleitos. Evita, porém, esta interpretação aquele que diz: Não fostes vós que me escolhestes.
Não há dúvida que eles também o escolheram, quando nele acreditaram. Daí o ter ele dito: Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi, não porque não o escolheram para ser escolhidos, mas para que o escolhessem, ele os escolheu. Isso porque a misericórdia se lhes antecipou (Sl 53:11) segundo a graça, não segundo uma dívida. Portanto, retirou-os do mundo quando ele vivia no mundo, mas já eram eleitos em si mesmos antes da criação do mundo.
Esta é a imutável verdade da predestinação da graça. Pois, o que quis dizer o Apóstolo: Nele ele nos escolheu antes da fundação do mundo?(Ef 1:4). Com efeito, se de fato está escrito que Deus soube de antemão os que haveriam de crer, e não que os haveria de fazer que cressem, o Filho fala contra esta presciência ao dizer: Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi. Isto daria a entender que Deus sabia de antemão que eles o escolheriam para merecerem ser escolhidos por ele.
Conseqüentemente, foram escolhidos antes da criação do mundo mediante a predestinação na qual Deus sabia de antemão todas as suas futuras obras, mas são retirados do mundo com a vocação com que Deus cumpriu o que predestinou. Pois, o que predestinou, também os chamou com a vocação segundo seu desígnio. Chamou os que predestinou e não a outros; predestinou os que chamou, justificou e glorificou (Rm 8:30) e não a outros com a consecução daquele fim que não tem fim.
Portanto, Deus escolheu os crentes, mas para que o sejam e não porque já o eram. Diz o apóstolo Tiago: Não escolheu Deus os pobres em bens deste mundo para serem ricos na fé e herdeiros do Reino que prometeu aos que o amam? (Tg 2:5). Portanto, ao escolher, fá-los ricos na fé, assim como herdeiros do Reino. Pois, com razão, se diz que Deus escolheu nos que crêem aquilo pelo qual os escolheu para neles realizá-lo.
Pergunto: quem ouvir o Senhor, que diz: Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi, terá atrevimento de dizer que os homens têm fé para ser escolhidos, quando a verdade é que são escolhidos para crer? A não ser que se ponham contra a sentença da Verdade e digam que escolheram antes a Cristo aqueles aos quais ele disse: Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi.
Fonte: A GRAÇA II, Editora PAULUS.
A Utilidade da Correção
Fonte
De Santo Agostinho
Os homens devem admitir a necessidade da correção quando pecam. Que a correção não sirva de pretexto com relação à graça nem a graça no referente à correção. Pois o pecado merece um castigo justo e o castigo está ligado à correção, a qual é aplicada a modo de remédio, ainda que a saúde do doente seja incerta. A correção feita ao participante do número dos predestinados sirva-lhe de salutar remédio, e tenha caráter penal ao que dele está excluído.
Tendo em conta esta incerteza, a correção deve revestir-se de caridade, dado que se desconhece seu efeito, e acompanhada da oração em favor do corrigido implorando-se sua cura. Porém, como os homens, mediante a correção, ou vêm ou retornam ao caminho da justiça, quem opera a retidão nos corações, senão Deus que dá o incremento, seja quem for o que planta ou rega, seja quem for o que trabalha nos campos ou nos bosques, aquele Deus cuja vontade de salvar liberdade humana nenhuma pode resistir?
Pois, o querer ou não querer depende da vontade do que quer ou não quer, mas não impede a ação da vontade divina nem supera seu poder. Mesmo aqueles que fazem o que ele não quer, ele faz com que façam o que ele quer.
A respeito da afirmação: Quer que todos os homens sejam salvos (1 Tm 2.4), e, não obstante, nem todos se salvem, admite várias interpretações, das quais comentamos algumas em outros escritos. Aqui mencionarei apenas uma.
Está escrito: Quer que todos os homens sejam salvos, abrangendo todos os predestinados, porque há no meio deles todo gênero de pessoas. Tem o mesmo sentido que a afirmação de Cristo aos fariseus: Pagais o dízimo de todas as hortaliças , entendendo-se todas as que colhiam, mas não pagavam o dízimo de todas as hortaliças existentes no mundo. No mesmo estilo de expressar, diz o Apóstolo: Assim como eu mesmo me esforço para agradar a todos em todas as coisas (1 Cor 10,33). Será que ele agradava também a todos os seus perseguidores? Ele agradava todo gênero de pessoas reunidas pela Igreja de Cristo, tanto os já convertidos como os futuros.
Pode-se afirmar com certeza que a vontade de Deus, que tudo o que faz, no céu e na terra (Sl 134,6), e que fez mesmo as coisas futuras (Is 45.11), as vontades humanas não podem não podem impedi-la que faça o que quer e que mesmo das vontades humanas faz o que quer e quando quer. Parece ser um exemplo contrário, para só citar um entre alguns, o caso de Saul, quando Deus quis dar-lhes o reino. Ficou a critério dos israelitas submeter-se ou não a este rei, o que significava a liberdade de resistir também a Deus. Mas não aconteceu assim, pois o Senhor contou com a vontade deles ao dispor de poder absoluto sobre os corações humanos, inclinando-os a seu bel-prazer. Pois, assim está escrito: E Samuel despedia todo o povo, cada um para a sua casa . E Saul voltou também para a sua casa em Gabaa; e foi com ele uma parte do exército, a quem Deus tinha tocado o coração. Porém os filhos de Belial disseram: “Porventura poderá este salvar-nos?” E desprezaram-no e não lhe levaram presentes (1 Sm 10.25-27). Alguém dirá talvez que não acompanharia Saul algum daqueles cujo coração o Senhor tocou para irem com ele, ou que o acompanharia algum dos filhos de Belial, cujo coração o Senhor não tocou?
Há também uma referência a Davi, a quem o Senhor estabeleceu no reino com absoluto êxito. Assim está escrito: E Davi fazia progressos adiantando-se e fortalecendo-se, e o Senhor dos exércitos estava com ele (! Cr 11.9). E mais adiante esta sentença: Amasai, porém, primeiro entre os trinta, revestido do Espírito, disse: “Nós somos teus, ó Davi, e estamos contigo, ó filho de Isaí. A paz, a paz seja contigo, e a paz seja com os teus defensores, porque o teu Deus te protege. (1 Cr 12.19). Poderia ele resistir à vontade de Deus e não obedecer àquele que lhe moveu o coração pelo seu Espírito, do qual se revestiu para isto querer, dizer e fazer?
Um pouco depois diz a mesma Escritura: Todos estes homens guerreiros, prontos para combater, foram com coração sincero a Hebron, para constituir Davi rei sobre todo o Israel (! Cr 12.38). Escolheram Davi como rei por sua vontade. Quem não vê? Quem o nega? Não fizeram hipocritamente e maldosamente o que fizeram pacificamente. Contudo, agiu em seu espírito aquele que domina os corações humanos. Por isso a Escritura afirmou antes: E Davi fazia progressos, adiantando-se e fortalecendo-se, e o Senhor dos exércitos era com ele.
Por esta razão, o Senhor todo-poderoso, que estava com ele, levou-os a constituírem Davi como rei. E como os levou? Acaso amarrou-os com laços materiais? Agiu internamente, apossou-se de seus corações, moveu-os, induziu-os, servindo-se de suas próprias vontades, inspiradas por ele.
Se quando Deus quer constituir reis neste mundo, mantém seu poder sobre as vontades humanas, mais do que eles as suas, quem senão ele faz com que a correção seja salutar e proceda a esta correção no coração do corrigido para que seja levado ao reino celestial?
De Santo Agostinho
Os homens devem admitir a necessidade da correção quando pecam. Que a correção não sirva de pretexto com relação à graça nem a graça no referente à correção. Pois o pecado merece um castigo justo e o castigo está ligado à correção, a qual é aplicada a modo de remédio, ainda que a saúde do doente seja incerta. A correção feita ao participante do número dos predestinados sirva-lhe de salutar remédio, e tenha caráter penal ao que dele está excluído.
Tendo em conta esta incerteza, a correção deve revestir-se de caridade, dado que se desconhece seu efeito, e acompanhada da oração em favor do corrigido implorando-se sua cura. Porém, como os homens, mediante a correção, ou vêm ou retornam ao caminho da justiça, quem opera a retidão nos corações, senão Deus que dá o incremento, seja quem for o que planta ou rega, seja quem for o que trabalha nos campos ou nos bosques, aquele Deus cuja vontade de salvar liberdade humana nenhuma pode resistir?
Pois, o querer ou não querer depende da vontade do que quer ou não quer, mas não impede a ação da vontade divina nem supera seu poder. Mesmo aqueles que fazem o que ele não quer, ele faz com que façam o que ele quer.
A respeito da afirmação: Quer que todos os homens sejam salvos (1 Tm 2.4), e, não obstante, nem todos se salvem, admite várias interpretações, das quais comentamos algumas em outros escritos. Aqui mencionarei apenas uma.
Está escrito: Quer que todos os homens sejam salvos, abrangendo todos os predestinados, porque há no meio deles todo gênero de pessoas. Tem o mesmo sentido que a afirmação de Cristo aos fariseus: Pagais o dízimo de todas as hortaliças , entendendo-se todas as que colhiam, mas não pagavam o dízimo de todas as hortaliças existentes no mundo. No mesmo estilo de expressar, diz o Apóstolo: Assim como eu mesmo me esforço para agradar a todos em todas as coisas (1 Cor 10,33). Será que ele agradava também a todos os seus perseguidores? Ele agradava todo gênero de pessoas reunidas pela Igreja de Cristo, tanto os já convertidos como os futuros.
Pode-se afirmar com certeza que a vontade de Deus, que tudo o que faz, no céu e na terra (Sl 134,6), e que fez mesmo as coisas futuras (Is 45.11), as vontades humanas não podem não podem impedi-la que faça o que quer e que mesmo das vontades humanas faz o que quer e quando quer. Parece ser um exemplo contrário, para só citar um entre alguns, o caso de Saul, quando Deus quis dar-lhes o reino. Ficou a critério dos israelitas submeter-se ou não a este rei, o que significava a liberdade de resistir também a Deus. Mas não aconteceu assim, pois o Senhor contou com a vontade deles ao dispor de poder absoluto sobre os corações humanos, inclinando-os a seu bel-prazer. Pois, assim está escrito: E Samuel despedia todo o povo, cada um para a sua casa . E Saul voltou também para a sua casa em Gabaa; e foi com ele uma parte do exército, a quem Deus tinha tocado o coração. Porém os filhos de Belial disseram: “Porventura poderá este salvar-nos?” E desprezaram-no e não lhe levaram presentes (1 Sm 10.25-27). Alguém dirá talvez que não acompanharia Saul algum daqueles cujo coração o Senhor tocou para irem com ele, ou que o acompanharia algum dos filhos de Belial, cujo coração o Senhor não tocou?
Há também uma referência a Davi, a quem o Senhor estabeleceu no reino com absoluto êxito. Assim está escrito: E Davi fazia progressos adiantando-se e fortalecendo-se, e o Senhor dos exércitos estava com ele (! Cr 11.9). E mais adiante esta sentença: Amasai, porém, primeiro entre os trinta, revestido do Espírito, disse: “Nós somos teus, ó Davi, e estamos contigo, ó filho de Isaí. A paz, a paz seja contigo, e a paz seja com os teus defensores, porque o teu Deus te protege. (1 Cr 12.19). Poderia ele resistir à vontade de Deus e não obedecer àquele que lhe moveu o coração pelo seu Espírito, do qual se revestiu para isto querer, dizer e fazer?
Um pouco depois diz a mesma Escritura: Todos estes homens guerreiros, prontos para combater, foram com coração sincero a Hebron, para constituir Davi rei sobre todo o Israel (! Cr 12.38). Escolheram Davi como rei por sua vontade. Quem não vê? Quem o nega? Não fizeram hipocritamente e maldosamente o que fizeram pacificamente. Contudo, agiu em seu espírito aquele que domina os corações humanos. Por isso a Escritura afirmou antes: E Davi fazia progressos, adiantando-se e fortalecendo-se, e o Senhor dos exércitos era com ele.
Por esta razão, o Senhor todo-poderoso, que estava com ele, levou-os a constituírem Davi como rei. E como os levou? Acaso amarrou-os com laços materiais? Agiu internamente, apossou-se de seus corações, moveu-os, induziu-os, servindo-se de suas próprias vontades, inspiradas por ele.
Se quando Deus quer constituir reis neste mundo, mantém seu poder sobre as vontades humanas, mais do que eles as suas, quem senão ele faz com que a correção seja salutar e proceda a esta correção no coração do corrigido para que seja levado ao reino celestial?
A Piedade é a Verdadeira Sabedoria
Fonte
De Santo Agostinho
Esta consideração é a que torna piedoso o homem, porque a piedade éa verdadeira sabedoria. Refiro-me à piedade que os gregos denominam theosebeian, a qual foi recomendada pelas palavras dirigidas ao homem e que se lêem no livro de Jó: Eis, o temor do Senhor é a (verdadeira) sabedoria (Jó 28,28).
Pois, se traduzíssemos o termo theosebeian para o vernáculo a partir do latim de acordo com a sua origem, poder-se-ia dizer “culto a Deus”, o qual consiste principalmente em que a alma não lhe seja ingrata. Por isso, no verdadeiro e singular sacrifício, somos exortados a dar graças ao Senhor nosso Deus.
A alma ser-lhe-ia ingrata, se o que vem dele atribuísse a si mesma, principalmente a justiça, de cujas obras se orgulhasse como se fossem próprias e como realizadas por si mesma em seu próprio favor. Avultaria a ingratidão, se o orgulho se manifestasse não de maneira vulgar, como fazem os que se jactam das riquezas ou da elegância corporal ou da eloqüência ou das outras qualidades tanto interiores como exteriores, seja do corpo, seja da alma, as quais os malvados também costumam possuir, mas também daqueles que são
os bens dos bens e de um modo não vulgar, mas próprio dos que se consideram sábios.
Devido a este pecado, o do orgulho, até ilustres varões bandearam-se para a desonra da idolatria, rechaçados da solidez da natureza divina.
Por esta razão, o mesmo apóstolo e na mesma carta, na qual se mostra defensor acérrimo da graça, depois de se confessar devedor a gregos e bárbaros, a sábios e ignorantes, e, portanto, pelo que lhe exigir sua missão, e depois de dizer que estava disposto a evangelizar os que se encontravam em Roma, afirma: Na verdade, eu não me envergonho do Evangelho, ele é a força de Deus para a salvação de todo aquele que crê, em primeiro lugar do judeu, mas também do grego.
Porque nele a justiça de Deus se revela da fé para a fé, conforme está escrito: “O justo viverá da fé” (Rm 1,14-17).
Esta é justiça de Deus que, oculta no Antigo Testamento, manifesta-se no Novo. Chama-se justiça de Deus porque sua concessão torna justo os homens, assim como o que está escrito: Do Senhor vem a salvação, indica que é a salvação com a qual ele salva. Esta é a fé pela qual e na qual se revela a justiça, isto é, a fé dos que pregam a palavra para despertar à fé os que obedecem.
Pela fé de Jesus Cristo, isto é, pela fé que nos conferiu Cristo, cremos que nos vem de Deus o poder viver na justiça e vivê-la com mais perfeição no futuro.
Por tudo isso damos-lhe graças com a piedade devida somente a Deus.
Extraído de: A Graça I, (Patrística 12)
São Paulo: Editora Paulus, 1998, p.36.
De Santo Agostinho
Esta consideração é a que torna piedoso o homem, porque a piedade éa verdadeira sabedoria. Refiro-me à piedade que os gregos denominam theosebeian, a qual foi recomendada pelas palavras dirigidas ao homem e que se lêem no livro de Jó: Eis, o temor do Senhor é a (verdadeira) sabedoria (Jó 28,28).
Pois, se traduzíssemos o termo theosebeian para o vernáculo a partir do latim de acordo com a sua origem, poder-se-ia dizer “culto a Deus”, o qual consiste principalmente em que a alma não lhe seja ingrata. Por isso, no verdadeiro e singular sacrifício, somos exortados a dar graças ao Senhor nosso Deus.
A alma ser-lhe-ia ingrata, se o que vem dele atribuísse a si mesma, principalmente a justiça, de cujas obras se orgulhasse como se fossem próprias e como realizadas por si mesma em seu próprio favor. Avultaria a ingratidão, se o orgulho se manifestasse não de maneira vulgar, como fazem os que se jactam das riquezas ou da elegância corporal ou da eloqüência ou das outras qualidades tanto interiores como exteriores, seja do corpo, seja da alma, as quais os malvados também costumam possuir, mas também daqueles que são
os bens dos bens e de um modo não vulgar, mas próprio dos que se consideram sábios.
Devido a este pecado, o do orgulho, até ilustres varões bandearam-se para a desonra da idolatria, rechaçados da solidez da natureza divina.
Por esta razão, o mesmo apóstolo e na mesma carta, na qual se mostra defensor acérrimo da graça, depois de se confessar devedor a gregos e bárbaros, a sábios e ignorantes, e, portanto, pelo que lhe exigir sua missão, e depois de dizer que estava disposto a evangelizar os que se encontravam em Roma, afirma: Na verdade, eu não me envergonho do Evangelho, ele é a força de Deus para a salvação de todo aquele que crê, em primeiro lugar do judeu, mas também do grego.
Porque nele a justiça de Deus se revela da fé para a fé, conforme está escrito: “O justo viverá da fé” (Rm 1,14-17).
Esta é justiça de Deus que, oculta no Antigo Testamento, manifesta-se no Novo. Chama-se justiça de Deus porque sua concessão torna justo os homens, assim como o que está escrito: Do Senhor vem a salvação, indica que é a salvação com a qual ele salva. Esta é a fé pela qual e na qual se revela a justiça, isto é, a fé dos que pregam a palavra para despertar à fé os que obedecem.
Pela fé de Jesus Cristo, isto é, pela fé que nos conferiu Cristo, cremos que nos vem de Deus o poder viver na justiça e vivê-la com mais perfeição no futuro.
Por tudo isso damos-lhe graças com a piedade devida somente a Deus.
Extraído de: A Graça I, (Patrística 12)
São Paulo: Editora Paulus, 1998, p.36.